o elétrico

o elétrico chega ao ponto dos Prazeres apinhado de pessoas.

já está lá, também apinhado de outras pessoas, o ponto de paragem.

as vozes andam enroscadas entre a espera e a espera.
descer para depois subir.
é um bonde.

hoje não há quem — além do condutor — pareça já conhecer o trajeto, o carril, o banco. (não sei o que pode ter-me feito levantar isto, mas enfim…)

alguns olhares de dentro para fora me ajudam a ver as coisas que são “tradicionalmente portuguesas”, e que enchem de entusiasmo as mãos que comandam as câmeras fotográficas.

ah. azulejos…

muitas vezes do lado de fora do bonde, seja na espera para a partida, seja assim, se atirando a frente do carro, as pessoas posam ao lado do elétrico. não vejo como não estranhar. penso que caso a Aleta Valente* estivesse por aqui, talvez posasse ao lado de um autocarro 774 e esta foto seria uma postagem no Instagram. riríamos. é irônica, a Aleta.

a cara que é própria do elétrico parece agradar muitas pessoas. estão sempre a fotografá-la.

deve ser chato… lembra quando nas festinhas de aniversário ias brincando brincando brincando, de boas na existência, e vinha uma pessoa maior em tamanho que ti e dizia “vem! vamos ali ali ali tirar umas fotos com o tio a tia o bolo o mágico a xuxa”…? pois. chato.

no entanto elétrico tem me ensinado muito em viagens quase diárias desde os Prazeres até a Figueira. o tempo a que o elétrico convida no seu adentrar a cidade. acho eu que se trata do tempo…

um moço já velho que deixa a mostra a petulância da juventude dos automóveis. o desajeito humano de pôr-se no caminho do que já estava lá.

o jeito que os vidros das janelas têm de acolher a cabeça na volta pra casa. menos saltitante que os do autocarro, menos enjoativos que os do metro.

até as voltas que ele indica se estivermos pelas ruas a pé acompanhando os caminhos dos trilhos!

o  “chegar logo” vai fazer valer a transportação no primeiro autocarro que estiver na paragem, mas o elétrico tem a ensinar sobre a respiração com os ponteiros do relógio — se estamos a usá-los. o cuidado de exercitar o coração ali na casa do coração, não na portaria, deixando correr a carroça na frente dos burros. e isto são modos de deslocar que depois se ajeitam a diversas nuances de transportação…, consoante a prática, imagino…,

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* A Aleta é uma artista brasileira fixe. Recomendo o Instagram dela pra quem acredita no Insta. @ex_miss_febem2

 

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