conhecimento amoroso

Estou no c.e.m. Não sei há quantos anos teço este vai e vem (quase) diário de me aproximar de um lugar que sou eu também… aproximar-afastar é um estado amoroso implicado no rigor que cada momento pede, e isto parece-me um tipo de conhecimento que nunca se acaba de conhecer. Confunde-se com a própria manifestação de estar vivo… vai ao subtracto que sustenta as coisas que queremos fazer por alguma razão. Nalgum lugar de nós estamos sempre aproximando-nos e afastando-nos de uma densidade por quem estamos apaixonados, que queremos conhecer amorosamente. No outro dia pensei enquanto caminhava atrás dos pés atravessando Lisboa e deixando-me atravessar por ela que era bonito abrir uma associação para a desobjectivização dos objectos. Escrever isto agora em 2018 parece uma piada ou uma tentativa de fazer humor com as palavras, mas se conhecimento é estar à escuta, é entender as ressonâncias que as coisas fazem entre si e entre elas e eu, parece-me incontornável considerar qualquer coisa na sua singularidade, na sua pertinência de assumir determinada forma, independentemente da matéria que a constitui. Não se trata de formalizar os direitos dos objectos (aí já estamos no domínio das leis, não no domínio das forças), mas de lhes escutar o silêncio de onde emana uma linguagem. Ao longo do meu vai-e-vem com o c.e.m tenho encontrado muitas situações facilmente resolúveis através de fórmulas largamente anunciadas de como ultrapassar tais situações: seja dizer claramente o que fazemos através de um esquema simples, ou usando palavras-chave do jargão comum, seja escrever papéis com regras de boa convivência como “não deixar os sapatos na entrada” para que toda a gente saiba que não se deve deixar sapatos na entrada, seja tratar os outros ou quem vem de novo consoante as regras da boa educação, dizendo “Boa tarde” e explicando a que horas são as aulas e quanto e a quem se deve pagar, seja no trabalho de rua perguntando às pessoas o que têm falta, quais são as suas queixas, para depois fazer um esquema simples capaz de cruzar a informação e poder-se chegar a conclusões… mas o conhecimento amoroso não pretende chegar a conclusões, não pretende objectificar o outro ainda que seja com a melhor das intenções, reduzindo-o a alguém que se encaixa na categoria de aluno, visitante, morador, investigador, e que portanto desde essa categoria precisa de ver respondidas certas exigências pressupostas como saber as regras da casa, ou saber porque estamos a fazer o que estamos a fazer. E enquanto nos enredamos ou não nessas armadilhas, enquanto vamos acedendo a essas exigências por falta de densidade de poder fazer aparecer outros estados de relacionamento, alguma parte de nós vai indo e vindo em torno do conhecimento amoroso. Uma parte de nós entende que há um acesso sempre presente por onde se adentra para a intensidade de um encontro, onde estamos sujeitos à deformação pelas forças, que é o que no fundo estamos sempre a fazer… a angústia é provocada pelo desalinhamento que querer perceber por análise provoca na nossa vida enquanto secretamente sabemos que estamos vivos pelo nosso incessante conhecimento amoroso.

margarida

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