Cartas Brasileiras

Vou começando outra vez a ensinar (?) História da Dança (?) no Brasil(?!!)… Mais uma temporada de estudos cheia de questionamentos… Com quem vou falando, essa turma com seus 17, 18, 19, 20, 21, 22, vinte e poucos anos, que rala feito louco com um sonho, ser bailarino, no país da dança (!) . Caramba, quanta escuta e quanto a aprender. Aprender ouvindo, aprender percorrendo, aprender perguntando. Como é bom estudar Brasil!… como Brasil é tanta coisa mestiça e múltipla que não cabe em generalização nenhuma… nem ginga, nem bunda, nem alegria cordial nenhuma… até a lista de esteriótipos é um colosso!… que bom… me sinto exclamando esse texto todo, mas é que tô diante de uma dimensão, de uma proporção, de uma escala repleta de transbordamento… então peço licença, para exclamar mais um pouco o quanto são heterogêneas e assimétricas AS culturas brasileiras!!!… sertão, cerrado, ilhas fluviais… Só para ter uma idéia comecei hoje lendo barroco, dançando cortejo e tô agora finalizando ouvindo Milton Nascimento! Nossa, que viagem do sertão às esquinas… Lendo e ouvindo essa coisa Cultura Brasileira me deparo sempre e de diferentes formas, com alguma importância com a dança na vida das pessoas. Na vida da gente que vive e sobrevive aqui tentando ir se descolonizando, desde muito. Quanta dança por aqui, quanta dança abrindo frestinhas de liberdades. Fissuras importantes. Uma resistência movente e ritmada, ao longo da história… Mas mesmo indo sabendo de tudo isso, ainda me doí um tanto tudo isso que tá acontecendo agora – ódios, polícias, o problema é política mas na verdade o problema já somos nós todos mesmos com tantas agendas entupindo encontros e a escuta para o coletivo… nesse Brasil eu sofro e ainda não consigo observar com distância e ver onde tá brotando a dança nisso… mas também falo de Brasil estando em São Paulo, que é um lugar que apesar de eu não acreditar em uma definição de Brasil, me parece uma antítese do qualquer devir-paubrasil hoje em dia… trabalho em mim a conexão com Sampã, com a Semana de 22, com as aldeias pré-Piratininga… Penso na minha turma, nas turmas dos dois outros projetos que estou trabalhando… E escuto danças pretas, danças periféricas, danças furiosas… Tem muito tremor por aqui, mas também tem afeto. Essa semana assisti uma defesa de mestrado linda, fora da universidade, num espaço de dança, no Centro de Referência da Dança… a Anelise a falar dos Afetos e das Encruzilhadas, descolonizando e liberando os corpos de dores e opressões… Mexeu comigo ouvir tudo aquilo… Às vezes eu penso que vou sufocar nesse território tão gigante e imprevisível… Mas quando eu penso nessxs manxs, dá um pouco de coragem… A gente sente que tem caminho, que não tá sozinho, e que precisa somar na força… Relaxo as preocupações um pouco, e tonifico o pulso. Percebo que por entre os desertos que atravesso tem também oásis, mata, lagoa, chapada, horizonte, vista… essa paisagem pode ensinar muito, esses corpos tem história demais… A terra já também tá falando tudo, tudo mesmo, já faz dois anos Mariana… a gente pode ouvir a terra, ouvir xs manxs, encontrar a terra, encontrar xs manxs, mas tem que se abrir a terra, tem que se abrir xs manxs… tem que se deslocar… e largar também… vou finalizando meu plano de aula para essa segunda largando meu inconformismo um pouco…

 

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