entre paris, lille, torres novas e lisboa

enquanto os dedos foram fazendo aparecer este escrito fui bebendo da sensação que ele não é um escrito…é um exercício de co-respiração…talvez o escrito apareça um dia mas não quiz deixar de deixar esvoaçar esta semente:

temos andado a viajar, a dançar e a partilhar descobertas das nossas práticas de corpo, temos andado mais longe da casa-cem e das ruas de lisboa, temos andado a escutar outros lugares, outras gentes, outros desassossegos… a pergunta é sempre em corpo. que corpo é este que atravessa, que comunica, que se liga, que aprende? que corpo é esse que sabe não sabendo ….que não sabe? que a vida atravessa a morte, que tenho que apurar o largar, deixar-me desfazer…sem saber se esse corpo que vou sendo aparece ajuntado de novo, com tónus para estarcom…sem saber-sabendo que cada momento de encontro vibra numa força imensa mas que não posso “fazer” força…não posso “forçar”. que existe uma justeza própria de cada encontro, que só navegando a caminhada posso afinar com essa justeza e que isso implica uma fineza de ser que é difícil ouvir por entre os gritos do que se escreve sobre cada momento. o convite, a expectativa, o estrangeiro, o diferente, o novo, o nome…

afinal o que é realmente importante para cada umaum? porque aceitamos o convite? porque o expressamos? talvez não tanto “porque” mas “onde”…como alinhamos com o nosso próprio desejo de ser-estar-fazercom sem nos armadilharmos na desconfiança, nas leituras apressadas do Outro e do Mundo…

em paris o tempo aperta-se, o silêncio oprime-se, o militar de fato camuflado de folhas (talvez devessem ser gárgulas…) compõe-se com outros guardas frente à notre dame por entre as poses dos turistas e os riscos dos skaters, o sena flui charmoso e brilhante de luzes encantadoras e os refugiados amontoam-se em esquinas enrolados em mantas e cheiro a kebab. o amor serpenteia os momentos. nas práticas de corpo aparece a co-existência da geração de tramas, de redes, enquanto se criam espaços, bolsas de silêncio.

em lille ajuntam-se vidas escutantes, curiosas, disponíveis, vibrantes…do lugar fica em corpo a neve que cai em manchas diagonais enquanto dançamos o sopro,… e o frio a atravessar os ossos do crânio. lille torna-se um encontro de gentes, os espaços aparecem desde o interior desses encontros. nada é o que parece.

atravessar frança e o norte de espanha e deixar os olhos estenderem-se por campos imensos com montanhas cobertas de gelo na distância, tanta beleza não humana…a ruga a estalar, o espanto…

em torres novas a sensação de ajuntamentos de formas de vida que aplicam drenos noutras formas de vida para repor a energia que insiste em escoar-se dos seus habitantes…continuamos a caminhar enquanto uma membrana espessa e fria embrulha o corpo. o abismo. a desintegração do que julgavas vir sendo corpo-sofia…a mão a esticar-se e a tocar nada. a não reconhecer a consistência do momento… o sopro a fazer-se acontecer numa tecitura sem referências…o corpo que se ajunta na dança-atmosfera-música alinha-se na brecha por entre universos que está sempre lá mas que, na nossa pena de nós mesmos, tendemos a não ver.

a mancha de calor quente rodopia no palco.

uma macieza terna vai lavando as máscaras de quem vem ao encontro. o momento faz-se poesia. magia-bruxaria.

em lisboa, por entre as pedras que temos vindo a beijar no pedras, o tempo desdobra-se, o sorriso abre, o coração espreguiça-se, a margarida poisa as mãos no meu cotovelo doído, eu poiso as mãos no ombro torto da isabelinha da tasca da cruz dos  poiais e um homem coberto de pó branco, mascarado de cão-anjo, encosta-se na contra-luz da porta a rir.

sofia

 

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