O corpo que não pede. deixar destecer “estamos a criar uma barreira” – Percurso do Bairro 6 de Maio, Amadora até ao Ministerio do Ambiente

3 de abril, por volta das 8 da manhã: cortam-se a água e a luz e fecha-se e ata-se um cardão ao redor do bairro 6 de Maio na Amadora ‒ fechando o acesso ao bairro com a excusa de fazer uma batida policial ‒ deixando cada minuto menos espaço para os espaços-casas respirarem. Uma dozena de casas estão a ser demolidas, o que só mais tarde se saberá, algumas delas ainda habitadas por pessoas e familias sem acesso a alternativas habitacionais. Ouve-se falar de uma lista ‒ com os nomes de quem pronunciou que está sem alternativa de habitação ‒,  ponto de consideração mais importante para a Câmara responsável. Pergunto-me, perguntamos-nos, porqué não se fala de pessoas?

Foi no caminho do cem para o bairro, demorando na estação do Rossio, que chegamos a ouvir das demolições. Esperou-nos uma forte presença policial, sendo explicada com o motivo de “segurar a segurança”. Segurar a segurança de quem? Em troca de que?

Foram despejadas pelo menos duas pessoas das suas casas, uma delas em estado de saúde muito precário. Sem ter havido o tempo de recolher ou salvar as suas pertenças, econtra-se sem abrigo, sem acesso a qualquer alternativa habitacional. Depois de várias horas de tentativas de parar as demolições, a grande maioria do grupo tinha-se deslocalizado para o ministerio do ambiente, com o objetivo de falar com a secretaria de estado pela habitação. Foram várias horas de vigilia-ocupação-persistência que levaram a uma conversa com uma funcionária do ministério e um deputado presente. Conversa, digo qualquer tipo de abordagem da problemática urgente. De um debate efetivo, pensando em soluções adequadas, não se pode falar quando as pessoas despejadas encontram-se perante a necessidade de pedir abrigo de emergência e vão sendo remetidas para aguardar uma conversa com o serviço social no próximo dia, sem ter garantia de abrigo para essa noite.

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Senti ontem uma forte ambivalência ‒ digo uma ambivalência no sentido de um sentimento de antagonismo, um movimento de tensão com forças em direções oponentes ‒ entre estar com as pessoas e estar com o lugar. Entre estar com os corpos habitados e estar com os corpos habitantes. Senti que acompanhamos um processo que foi uma separação de várias camadas de um mesmo corpo. casa. habitar. vida. O corpo-espaço bairro e casa ao qual foi tirado o seu elemento vida. Os moradores, corpos em movimento, pessoas com pertenças, às quais foi tirado o seu elemento vida. Corpos que habitam um espaço que vai sendo corpo vivo e dá vida reciprocamente aos corpos que o habitam. Como corpo presente, acompanhador, documentador, observador, ativista, o qué acompanhar, a quem acompanhar? Senti, sinto, que tanto os corpos habitados como os corpos habitantes querem, precisam ser ouvidos, querem passar os seus sentimentos, contam histórias, gritam e precisam ser acompanhados nesse processo de separação forçada, súbita, sem previsão, enfrentado sem preparação física nem emocional. Um des-encontro imprevisto no qual a conversa entre corpos-espaços habitados e espaços-corpos habitantes está sendo sobrescrito por uma outra conversa. Uma conversa muda, sem espaço para palavras ou para aproximação ‒ entre os/as que querem “segurar a segurança” e os/as que querem libertar a liberdade dos espaços. Liberdade dos espaços, direito aos espaços. Conversar entre corpos e espaços.

O meu corpo sente muito forte a necessidade de estar entre os espaços-corpos, com as casas, com o bairro, com o espaço habitado, corpos habitados. Necessidade a qual ontem não escutei no primeiro momento em que surgiu. Forçei-me, primeiro, e depois consegui deixar-me levar ‒ talvez ‒ pelo percurso dos corpos habitantes. Um percurso do seu bairro ‒ em dor, em luto ‒ para o ministério do ambiente ‒ com raiva, em luta. Senti-me a estar ditanciar-me do lugar que me chamou para demorar. Mas aí, começei talvez a sentir o fio que continua juntando as camadas entre corpos habitantes e habitados desse espaço casa-vida que é o bairro 6 de Maio para as pessoas que se encontraram na luta-demora dentro do ministério. Quando é que um bairro morre? Quando é que um espaço perde a sua essência? Pergunto-me isso. Será que é quando as suas casas, os seus espaços-habitados desaparecem, se transformam, irreversívelmente? Será que é quando as pessoas que o habitam vão embor, os seus corpos habitantes, os seus corpos-vida-movimento? Qual é a essença de um esapaço-casa?

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5 de abril, bairro 6 de Maio na Amadora. Casas, pedras, casas-pedras. Parece arte, parece um jogo de pedras de Lego que, depois de terem sido organizadas em forma de casas e outros objetos da paisagem bairro, foram espalhadas pelo chão…Pedras que transmitem histórias, emoções, vidas ‒ entre a nudez das paredes expostas. Os últimos corpos-casas persistentes parecem querer esconder-se, sem ter lugar para onde ir, buscando apoio por entre as pedras de história. Casas que não sabem mais como lutar, pessoas que não sabem mais o que comer. Comeram-se as casas na frente da boca das pessoas.

Julia D.

 

um dos policiais está mascarado. o dono da casa amarela assistia, entre nós, às telhas da sua casa serem retiradas. era um erro, bastaria um telefonema. mas a Câmara não atende. Ninguém grita, ninguém xinga, ninguém joga uma pedra. dezenas de pessoas assistindo em voz baixa numa indignação resignada de quem lida com máquina.

não conhecia o bairro, não sei se já estava sem ar ou se está sendo asfixiado na minha frente. pela reação de algumas pessoas parece o segundo caso. Que missão, destruir a casa de alguém. Será que eles fazem o cordão de isolamento achando que aquilo já era uma gangrena ou será que sabem que são eles a gangrena? as fardas pretas de abutre circundando a morte de um tecido urbano. o que será que vão fazer com essa terra?

a frase da julia fica na minha cabeça: “comeram-se as casas na frente da boca das pessoas” parece que vieram trazer a fome.

forma-se um grupo que vai protestar um teto para quem teve a casa comida. estou de passagem, mas me dizem que a presença de mais corpos é boa, então eu demoro com eles. desviamos da Câmara e vamos direto ao “ministério do ambiente”, que a mim parece estranho – no Brasil teria sido o Ministério das Cidades, mas enfim é isso mesmo: uma questão ambiental, ecológica, a disputa e coexistência de formas de vida. Que corpos podem comer à mesa, quais são corpos estranhos. É bom lembrar que além do parasitismo existe o comensalismo, o mutualismo, o epifitismo, enfim, a variedade de formas de associação só é limitada pela imaginação de percebê-las ou a disposição de experimentá-las. talvez fosse útil disseminar outros nomes para ver se brotam outras formas de associação.

Não conheço bem os fluidos da política local, mas demoro, emprestando o corpo para engrossar o caldo da reivindicação daquela tarde. Fico até dizerem que já não é mais preciso, mas saio sem saber onde ele vai dormir. Sei que o bairro está condenado, mas que fora das cascas das casas havia alguns laços, alguma associação e solidariedade que procura se rearticular. não salvaram o bairro mas o despejado não ficou sozinho. não sei se é muito ou é pouco, mas não é o suficiente. fico pensando na variedade de narrativas necessárias pra compor um ambiente complexo, que não seja meramente uma cidade eficiente. e o que havia por trás da máscara preta, se era possível alcançá-lo.

Cícero

 

Depois dos brazos das barreiras da estaçao de Rossio, tomamos a besta-comboio para Amadora.

Que sorpresa de chegar no bairro 6 de maio completamente cercado de policiais nessa falada « voces nao pode entrar » punto. Okaye. Esse bairro onde ja aconteciam demoliçoes de casas com pessoas a viver dentro que foram expulsadas sem soluçoes alternativas nenhum. Desde ja algumas anos, a associaçao Habita principalmente luta para suprimir o proyecto de demoliçoes e expulsoes da gente desse bairro. Ainda hoje, duas demolicoes acontecem a nossa frente. Damos a volta do bairro e encontramos gente do bairro e de associaçoes jà juntos, tentando achar a novo uma soluçao – que nao ha – de urgência.

Aqui começa a propulsao do nosso corpo-demora num tempo-situaçao que jà nao acontecia antes e  se calhar nao acontecará depois, um corpo entao livre da contingência desse evento enquanto ele grita dessas sensaçoes todas do que que esta a acontecer. Enquanto que o corpo se dá presente a esse dia, sento a sua materia subir dentro de mim até chegar na zona do cerebro como vortex que empurra entre meus dois olhos – « achar uma soluçao » -. Sentir uma sorta de barreira se criar entre os corpos que lutam e os policiais a frente parece a anti-soluçao no momento de continuar. Devagar, deixar essa corporalidade despeçada pouco a pouco nomear a demora – o corpo que nao pede – vai là. A demora pede de nao pedir, por favor. Presente como agua viva que ricochetea sobre o vidro, amorosa e presa (isto é uma imagem da Julia Lalala na sua visita por animais do mar…)

Ao fim dum momento, a Rita da associaçao Habita propoe de ir para o Ministerio do ambiente porque qualquer soluçao emerge com a Câmara, e nao poder ser. A propulsao entao continua, correr apanhar o autocarro, chamar o outro, viagar até o centro de Lisboa, pulsar um pouco mais o corpo-grupo que luta.

Nas escadinhas do ministerio, a guerra começa entre as graças dos serviços publicos ( « eu vou chamar a câmara » « a câmara aceita a reavaliaçao das demoliçoes » « a câmara aceita o alargamento da lista de pessoas que nao tem soluçoes depois da sua expulsaçao » ) e possibilitar continuar existir os seres humanos expulsados.

Depois de algumas horas na espera duma resposta-soluçao para as duas pessoas e suas familias, a funcionaria abre a porta em cima e diz « desculpa pela demora ». Jà la esta, diz o outro.

Coline

 

Chegada noutra paisagem. A vigília em revoada de seres que se assimilam à medida em que não se distinguem. Estamos à frente do acontecimento – demolições.
A tessitura do estar que se fortalece não é pelo que falou ou fez alguém, é sobre o encontro. lado-a-lado. como quando chega a senhora de braços abertos. Me cumprimentou com seu amor como se nos conhecêssemos de sempre.
Há entradas diversas ao coro e a possibilidade de aproximar a afastar conforme. A escuta como tecedura de coletividade. Presentificar-se é só o que nos vale ser parte.
Veio também a Francilina, Purtucha. Considera à todos com as mãos quentes. Há gente de toda parte, vários países. Sentamos à beira a permanecer, em vigília do acontecimento, à ver o que se pode freiar, pressionar.
Entre sol e vento circulam palavras que trazem outras palavras e agitam movimentos, andares, circuitos. Na linha de frente, mulheres.

No ministério.
Ela se pergunta em silêncio o estar que a convida a tornar-se parte de uma história sobre outros. Dizem que não nos receberão. Dizemos que daqui não sairemos. A disponibilidade para a demora é a disponibilidade para ser regido pela rua-mundo.
A mulher aparece no alto da escada a dizer que a secretária de estado só estará disponível amanhã. Ela pede o escrito e documentado e acha que isso tudo trata-se de um pedido a uma reunião.
Do que vale a política se não há disponibilidade para se movimentar em função dos acontecimentos? disponibilidade de deslocamento.
Cá estamos, cá continuamos. Escreve-se uma carta à ponta de caneta e a situação é sobre duas pessoas que HOJE perderam suas casas e HOJE não têm onde dormir.

Permeabilidade é o que o corpo refaz à medida que entra no que é estar aqui. Não sabe nada, nada sei. Abro o que quer que seja para continuar sem saber. é esta a qualidade do ser desperto e em si.

A cabeça que ponta a frente desse ajuntamento de corpos tem os olhos vidrados, senão virados, vermelhos. A circularidade ocular na presença anuncia sua urgência.

Julia L.

 

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