encontros com pessoas e lugares na ilha da madeira

Enruga-se a terra em dobras sobre dobras e o espaço em volta comprime-se como se ajuntasse a roda da saia já plissada.

Os verdes, as casas, as ribeiras, enrolam-se sobre si próprias enquanto o condutor da camioneta solavanca em arranques e paragens que não têm mais de 50 passos de espaço entre. Desta paragem de camioneta vejo já a próxima mas a ladeira íngreme não perdoa pernas cansadas. Subimos a pique por estradas onde quem vem a pé se encolhe nas pontas dos pés.

As nuvens abraçam-se em torno dos altos e já vou percebendo que “nevoeiro” é um viveiro de nuvens.

Quem tem mais anos de vida não se estica muito para longe do chão. São corpos pequeninos, compactos, corpos inclinados como o palco do teatro Baltazar Dias.

Que a inclinação do teatro até é a mesma que a do teatro São Carlos lá em Lisboa mas este espaço é tão mais pequenino que parece que não se abre outra porta senão vir a rebolar até ao colo de alguém simpático que se sente na fila da frente.

“Aqui há uns anos era só cascalho, agora já temos muitos turistas a conhecer a ilha…eu queria menos turismo e mais cultura…queria que não se fechasse a porta a uma visão mais ampla e arejada do mundo. Sempre fui alegre e não gosto de atravessar a rua na passadeira, mas com o convívio com o meu marido e o meu filho estou a ficar cada vez mais apertada…ele é francês e diz que eu sou assim aberta porque na Madeira todas as mulheres são assim…mas olhe que não são…Basta dar uma volta por outras terras e já se tem uma outra forma de estar.” Os olhos azuis esverdeados brilham com uma luz intensa…”amanhã venho ver a dança, venho sim!”

Ternura.

O sr João soldou tantos anos que acabou por soldar os olhos. Diz que uma vez tocando não lhe desaparece mais a imagem. Diz que não sou muito alta e que tenho os olhos castanhos, que a sua mulher continua sempre a seu lado, que ela o guarda com os seus olhos azuis. “Perdi a minha mulher e perdi a vista. É preciso muita força para continuar a ver”… Às vezes desliga do agora e sai fora da sala e das actividades que supostamente o animam. Costumava mergulhar aos polvos, mas se agora o puserem no mar vai aos polvos na mesma…a seu lado a dona Mary (diz que a chamam de Maria mas em inglês) só se levanta de vez em quando para se ajuntar à roda que baila com quem quer, de resto está ali pronta para o ajudar, era muito amiga da sua mulher e a amizade passou para ele.

O Ângelo vai tocar guitarra baixo atrás de um penedo do outro lado da ilha. Que pena não poder ficar para o concerto AWAY, é com muita atenção que se demora no desenho de luz, o Pedro do som também se apruma atencioso. Passamos muitas horas a ouvir as falas de madeira deste teatro antigo. O senhor David desaparece na sua casinhota de electricista, só se vê a boina pequenina a espreitar atrás do monitor. Deito-me na inclinação do palco com a cabeça para o camarote da presidência e deixo escorrer o sangue e as ideias.

Diz que dantes se punha sabão debaixo de umas tábuas e se vinha escorregando ladeira abaixo, os cestos era para transportar as famílias abastadas que tinham casa recolhida lá no alto da montanha.

Agora a ilha pode visitar-se desde fora ou desde dentro…se escolhermos as estradinhas antigas o mais provável é haver muitos lugares por onde não se pode passar.

Oiço pássaros e vento e junto ao mar deixo-me encantar pelo som do cascalho que leva as ondas de volta ao longe.

A batata aqui é aquilo que no Continente chamam batata doce. Ele diz que costumava roer batatas cruas logo de manhã quando era criança. A senhora do mercado vai explicando cada pormenor do que tem na banca, vai dizendo o que é da Madeira e o que vem do Continente, vai apontando a fruta que está boa de comer e a que ainda não está ou já passou do tempo, com sinceridade. Parece límpido ser sincero, olhar os meus olhos e gostar que me sinta bem…quem trabalha na restauração tem uma preparação e um rigor que raramente encontro em Lisboa. Com elegância ele leva os pratos distribuídos pelo braço, faz uma pausa, vira-se para a mesa e diz “já sei que não gosta de cenoura cozida…” daqui a pouco está a ensinar-nos a dançar. Fala com proximidade, com uma gargalhada sempre a nascer, quando finalmente despe a farda debruça-se um bocado sobre a mesa a convidar para nos ajuntarmos ali depois a jogar setas.

A camioneta parte aos solavancos, gostam de acelerar aqui na ilha! Vamos até ao fim da linha, saímos num lugar onde não se encontra ninguém senão a lígia da tasca, o irmão que viveu no Continente, um homem bêbado, uma senhora de casaco vermelho que nos abre o coração contando histórias do lugar e um monte de cães a ladrar.

A Lígia oferece-nos cana do açúcar que apanhou há pouco ali ao lado. Anda moço que te ensino a chupar, não me diga que é preciso vir à Madeira para aprender, risos.

O pequenino Gaspar segreda-me que este animal que ele está a imitar não existe, que se lhe perguntarem diz que é um lagarto. O outro desmascara por momentos a carapaça dura e aninha-se ao colo, descalçamos os sapatos e vamos passando dedo a dedo, a respiração alenta-se. Numa revoada passam 3 que lançam de novo o corropio, ele levanta-se e diz-me “sou muito pesado…o meu pai diz que sou muito forte!”

As canções brincam entre momentos de gritaria e tempos de segredo…corpos na viagem de ir encontrando as modulações de ser…assim possam.

Chegamos ao Curral das Freiras, espreitamos a garganta da montanha, bebemos uma ginginha, abrimos a respiração de estar. Estamos para estar, não viemos à procura de recordações rápidas, de fotografias pitorescas, viemos ao encontro de quem se quiser encontrar connosco. Os cabelos muito brancos de duas mulheres que caminham devagar como quem vai debruando um napron trazem uma familiaridade curiosa. A pele muito morena, os olhos redondos e brilhantes…”eu gostava de ser branquinha de pele” diz ela, também diz que são irmãs, que a outra é mais velha mas que ela é que não se pode mexer, que nunca saíram dali, que a neta é que faz de mãe delas…mas em pouco tempo abre-se a festa e já toca guitarra na bengala de madeira, já cantamos canções e mais canções, já se ajuntam os rapazes que preguiçavam ao sol da esplanada, já a senhora da loja de souvenirs deixa os turistas ao léu e oferece acordeões de madeira para avivar o ritmo, já a outra mana desce da varanda e, mesmo esquecida das letras, afina a voz suave arredondando o coro…ao fim da tarde, enquanto nos abraçamos em beijos de despida ela diz “sonhem comigo esta noite”…o coração não esquece.

sofia

 

 

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