outros encontros com pessoas e lugares na ilha da madeira

Escrita na Madeira

Há sol e sombra, barcos embrulhados em janelas. As nuvens aqui misturam-se como aguarelas. Talvez o vento forte, aquele que torce o avião à chegada, torça também a chegada ao lugar. Várias coisas a acontecer ao mesmo tempo, e a que tem voz é a que acontece menos. Mas as ondulações estão lá, como o resto de um vestido a escorregar no caixilho da porta. Quando se volta a olhar para o fixar já não está lá. É assim o que existe.

Madeira inclinada, para ir demora-se meia-hora, para voltar dez minutos. O caminho do mar não engana, é só escorregar. O motorista Beto diz que aqui na Madeira as subidas são as mesmas que as descidas. É verdade, mas talvez o grau de verdade seja proporcional ao grau de inclinação. As voltas de carro enjoam o estômago pouco habituado a curvas. Torções, sempre torções. Imagino as pessoas penduradas nos lugares… chegamos ao mercado depois de subir, e lá estão as pessoas empoleiradas nos seus lugares. Isto digo eu que vim da subida, em chegando ali estamos todos à mesma altura. O palco do Baltazar tem oito por cento de inclinação. Também é preciso habituar-me ao enjoo. Hoje no Centro de Dia uma senhora de cabelo cor de cobre contou-me que só soube que estava grávida da filha já estava de cinco meses quando foi ao médico fazer análises. Antes disso pensava que os enjoos eram de problemas no estômago. Deixou-me um abraço doce. A Madeira é doce como a cana, uma suavidade na presença sempre a passar ao mesmo tempo do que se crê que está a acontecer. No centro convive o passeio turístico com as pessoas levando a sua vida. Levam-na para onde? Talvez montanha acima na carreira da camioneta que vai parando de 10 em 10 metros porque a inclinação é muito superior a oito por cento. Em compensação as casas desfilam nas encostas para deleite da vista, e há bananeiras e pessoas que aparecem nas varandas das casas e podem ver e ser vistas a grandes distâncias. È importante perceber como os pés ficam alterados se descermos ou subirmos por um tempo considerável. Não são só as distâncias que o corpo atravessa que são subjectivas, é também a inclinação dos pés… quanto tempo demora a integrar a inclinação dos pés? Uma vez contaram-me que na Holanda se chamava subida a uma inclinação tão subtil que só mesmo quem tem os pés habituados à planura consegue distinguir. O que será aqui no corpo a palavra “subir”?

Em Curral de Freiras três irmãs fazem a festa à volta de canções. Vão-se juntando como se fosse o vento a trazê-las para aquela nesga de sol. Na alegria de um sorriso a mais faladora começa a cantar quando lhe perguntam: “Então, gosta de cantar?” E lá vai desfiando canções,  nalgumas mais entusiasmada a bengala já faz de guitarra. Não precisa de apoiar as pernas que se sustentam por forças misteriosas da existência. Juntam-se dois rapazes que já estavam a ver a coisa a acontecer de longe. As irmãs riem-se. Quando se junta a terceira diz uma delas: “Aqui vem outra cambada!” E ela chega andando devagarinho com duas pernas suas e duas emprestadas. Só mais dois metros e já está na festa. Cria-se a roda, cria-se o balanço, cria-se o que é preciso confiar que se cria: A pulsação dos corpos, a confiança no que está a acontecer. Sem fazer força demais nem permitir que desaconteça. Como é que cada um faz isso? È um segredo intransmissível, é a tal borda do vestido a desaparecer no caixilho da porta. Se queremos agarrá-lo afinal nunca existiu.

 

….

 

Os velhos no centro de dia dizem que tenho as mãos frias. Mas o tempo na Madeira é meio engraçado, parece que vai ser uma coisa e afinal é outra. Ainda não me testou os limites do que posso aguentar de frio ou de calor. Porque na ponta final a coisa desenrola-se de outra maneira, como os caminhos montanha acima. As pessoas que estão no restaurante onde vamos comer são já próximos nos sorrisos. Lá está, a confiança de existir. No plano da existência encontramo-nos olhos nos olhos independentemente do que os olhos julgam ver.

Continuamos na caminhada. Cada momento abre um lençol novo. Uma onda de possibilidades. Cada vez sinto mais evidente que como em cada dia ao me esticar sinto que o movimento passa em linhas mais por fora ou mais por dentro do corpo, que o ali até onde estica é feito de um encontro corpo mundo e não de um território conquistado também o que os corpos podem fazer juntos não está designado à partida e cumpre-se a cada momento. Às vezes apanhamos um corredor de portas abertas e a tecitura do que podemos fazer juntos adensa-se numa trama que parece sustentar quase tudo. Outras a trama é uma gaze que se esburaca facilmente e a coisa passa a continuar noutro estado. Como encontrar o desafio de cada momento? Isso parece ser uma coisa bastante fácil para as ondas do mar, mas bastante difícil para os humanos. Nós temos o desfio e a perplexidade de nos termos de colocar em situação… porque as ondas do mar estão sempre nesse aí das ondas. Nós podemos escolher para onde levar a nossa ondulação… e nessa escolha perdem-se graus de liberdade que as ondas não conhecem, mas ganha-se a consciência do encontro.

O palco do Baltazar vai ficando menos inclinado. Hoje brincava de pensar que enquanto subia descia e enquanto descia subia. Acho que o palco ficou com dúvidas se o destino era escorrer para baixo. Estar lá faz toda a diferença, até porque não estar é que não faz diferença nenhuma. Faz toda a diferença para um modo de vida em que a vida é uma modalidade considerada. Em que não se existe por representações de sinais de vida. Será que o meu coração sabe imitar tão bem um coração que bate como eu sei imitar que sou eu? Talvez, se for ensinado a isso. Eu prefiro poder sempre escolher o caminho qualquer. Lidar com infinitas bifurcações, trifurcações, quadrifurcações… Se abrir a escuta percebo a impossibilidade de o corpo seguir a direito. Mas para deixar aparecer as evidências é preciso calar muita gritaria superficial de maneiras de ver as coisas.

Na creche um grupo de meninos aguardam-nos em silêncio. É um silêncio de expectativa da composição com o outro. “Como será que os corpos se compõem?” “Como será que se transforma o espaço-entre os corpos?”. A sensação de se ser cada um deve ser incrivelmente diferente. Como seria a sensação de habitar um outro corpo? Não digo na capacidade do que esse outro corpo pode fazer, na facilidade ou dificuldade em se deslocar ou fazer habilidades, mas na própria sensação/densidade de se ser aquele corpo. É que aposto que devem ser mesmo densidades distintas… e no entanto partimos todos da “verdade” de que começamos “assim”: de que antes do começo estávamos todos no mesmo lugar.

E estamos. Nesse lugar onde nos vimos olhos nos olhos. Mas esse lugar não serve para fazer coisas,  esse lugar não serve para nada, mas permite que possamos pensar que faz sentido as coisas servirem para alguma coisa. E então começamos a fazê-las, e é engraçado que é ao começar a fazer coisas que nos posicionamos. Talvez na sensação de movimento nunca tenhamos estado tão parados como quando estamos a fazer coisas. Quando um corpo co-existe com outro na emergência de estar a ser, um adulto não pesa mais do que uma criança, ou do que um velho, não é melhor, não sabe mais… na emergência de estarem a ser os corpos sabem como se compõem. É quando escolhemos o papel de adultos, mulheres, educadores, coitados, esquecidos, infelizes, preguiçosos, energéticos, vencedores, que podemos engaiolar o outro na nossa imensa sabedoria, na nossa eficácia e eficiência, ou fatídico destino para o fracasso. Senão o corpo sabe onde pode estar. Não se magoa nem vai com cuidado para não se magoar. Dança porque há movimento.

Atravesso a sala para lá e para cá com a barriga no chão ao lado de um menino que queria imitar a cobra. Fomos dizendo cobra-cobra-cobra-cobra! E havia realmente uma forma de mover que no entre-os-nossos-corpos tínhamos descoberto ser assim. Descoberto no sentido de destapado, de ter deixado aparecer aquela forma de andar com que ambos os corpos se afinaram. Por cada situação destas poder-se-ia abrir uma tese de investigação, ou então considerá-la profundamente na sua emergência e continuar a deixar o corpo permeável a estas descobertas, a estes destapamentos. Movimento não é uma coisa que se possa parar para perceber. Se se percebe, seguramente que já não estamos a experienciar movimento. Está-se a perceber o que seria se aquilo de que nos recordamos e que queremos perceber tivesse sido mesmo assim. E o movimento é parecido à água… adapta-se a qualquer invólucro e ficamos convencidos que por discernir o contentor sabemos alguma coisa do conteúdo.

 

….

 

A partitura dos dias vai-me informando formas de habitar o teatro. Transformar um sítio num lugar. Ponho-me a escrever isto no camarim. Ainda há dois dias este era um sítio com duas cadeiras grandes, uma mais pequena para a mesa de caracterização, um lugar para pendurar os figurinos, um lavatório, uma janela divida a meias com o outro camarim. Agora depois de algumas horas sentada aqui, depois de ter estado cá de manhã a fazer exercícios de afinação de escuta de movimento, sinto que há um encontro entre mim e o chão. Como quando hoje a Matilde na creche que estava ao meu lado enquanto eu reparava num livro me disse como se chamava e que tinha uma irmã e estava à espera de mais uma… se reparamos começamos a contar histórias… não é indiferente o que as tábuas de madeira do camarim escutam do meu corpo sobre elas. Se eu me assusto, elas também se assustam. Se eu as acolho elas também me acolhem. O chão é um especialista em segurar pés, assim a gente o ouvisse mais nessa sua especificidade. A mão é uma especialista em tocar e agarrar, assim a gente a ouvisse mais nessa sua especificidade. Tornar um sítio num lugar não tem a ver com trazer a fotografia do namorado, nem fazer marcas na parede… para mim tem a ver com co-estabelecer uma certa energia entre-as-coisas. Uma coerência no aproximar-afastar dos corpos quaisquer… mesa, cadeira, margarida, lavatório, matilde e a sua irmã ainda por nascer.

 

Hoje dizem que faz um dia pouco usual na Madeira. O céu azul fixo que dá para ver o horizonte. A suave brisa da tarde. Pela janela dividida com o outro camarim vejo as folhas de uma árvore balouçarem. Imagino que a coerência com que cada folha se mexe relativamente ao vento é impossível de reduzir a um algoritmo… e no entanto sabe-se imitar muito bem estes movimentos nos filmes de animação… tão bem que alguma coisa em nós regista que já viu essa particularidade, essa forma de fazer o irredutível noutro filme, noutra circunstância, e estranha… talvez não saiba dizer porquê, mas desconfia que já está a escorregar todo contente na representação da vida. Ontem quando se estava a fazer as luzes para o Sopro e para o Away havia uma alegre mistura entre os técnicos, as pessoas a limpar as galerias, eu e a Sofia em cima do palco a escrever… e estávamos todos num teatro cuidando de uma representação que vai haver no sábado e outra no domingo e eu a achar que uma grande representação poderia ser a possibilidade de deixar acontecer aquele momento real, sem cair na tentação de o reduzir a um algoritmo para o poder trazer num certo dia a uma hora certa.

Como é que se combina o acaso? Sabendo que a nossa intenção é um dos ingredientes do acontecimento, uma das linhas do tecido da realidade. Tem que se desejar, mas depois deixar acontecer, como amassar o pão e depois esperar que a massa levede. Se se cortam os tempos de nada altera-se a qualidade do real para um certo sabor a realidade. Temos de injectar sabor a pão no pão para não desconfiarmos do simulacro. E no entanto a vida sempre encontra um caminho. Partilhamos uma existência aqui e agora, nos Dias de Mim, na exposição, no Away, no The Green Man, nas Masterclasses, no Sopro, e isso apesar de estar escondido é o que permite a qualidade irrepetível do momento. Deixar que a fonte brote e humedeça a presença.

margarida

 

 

 

 

 

 

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