o homem de cabelo cinzento dentro de uma caixa e a dúvida sobre a humanidade que se pratica hoje

hoje dormi, descansei…mas o mundo não estava de feição. a poesia estava silenciosa ou muda. foi crescendo um grande desejo de não ser humana… a júlia bergman enviou a história de uma planta do tempo dos dinossauros que foi encontrando a sua forma de fazer vida, a samambaia açú que aqui deste lado vulgarizamos enquanto “feto”…sinto-me mais próxima dela do que daqueles que se agrupam hoje enquanto “humanos”. sempre disse que um dia quando fosse mais experienciada iria ser ou estarcom plantas…

estive-emos nas caminhadas e poisios pela cidade, cada umaum encontrando as suas paisagens. tive vontade de ajuntar, de não abrir muito a deslocação em espaço de distância fixa em metros ou kilómetros. em qualquer lugar. em qualquer acontecer se vai entrevendo a vida. fui caminhando com uma vontade decrescente de estarcom humanos…é muita falsidade. muita representação, muito fingir que não vês. fui concluindo o meu tempo de caminhar-poisar mais perto da casa do cem, no centro da baixa pombalina invadida por convites absurdos de turistificação. os paquetes-parede vão rasgando o chão do tejo e as enxurradas de predadores que querem levar uma parcela da cidade fritam os miolos de quem cá vive dia a dia.

estive  na mouraria com andaimes erguidos que roçam a roupa pendurada na casa da frente, estive com vendedoras de sexo que pediam comida em vez da bebida que ía correndo a jorros, perguntei a uma velhota à janela que era feito de lisboa e ela respondeu que é tudo para melhor só que já não se atreve a sair de casa.

a primavera faz das suas, impregnando cada canto esquecido de ervas e flores.

volto à casa-cem e deixo-me demorar num cabelo cinzento que brota de uma caixa coberta de plástico. os meninos de fatinho conversam coisas importantes e o homem de cabelo cinzento mexe-se arejando a caixa-casa mesmo no meio da rua da vitória. no centro da baixa pombalina.

não sei se aquilo é humano. é uma cinzentês que se instala ali, não é um pedido de ajuda, é a limpidês da co-existência de formas de vida…não entrepassa os corpos de gravata… é uma forma de vida que existe num outro universo e que naquele momento precisa de se reaconchegar.

tenho acompanhado muitas pulsões de corpos sem tecto, aqui em portugal, no brasil, em frança, este pareceu-me uma anjo rebolando desde as trevas compactadas, não querendo nada senão arejar o seu canto.

corpo feto….assim eu possa, na minha miniscularitude.

sofia

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