Cacilhas

Olho para Lisboa, sentada na pedra a beira rio. Este rio que soa a mar. Ondas. O som continuo que vem da ponte a minha esquerda. Vento. Lisboa vista de fora. Nuvens rarefeitas por cima da cidade. Está um navio de carga no porto. Carrega contentores. HAMBURG SUD, está escrito no lado. O navio vem de Hamburgo, vai para Hamburgo, ou só è o nome que ele tem? Que mercadorias viajam de Hamburgo para Lisboa, ou de Lisboa para Hamburgo? Ou de Hamburgo para sei lá aonde, muito longe, do outro lado do mundo, passando por Lisboa? E enquanto escrevo isto o vai e vem dos cacilheiros não para. É a hora das pessoas voltarem do trabalho. Na ponte também o trânsito não para. No cais de Santa Apolonia estão dois navios de cruzeiro. Acho que um deles acabou de se despedir do cais, está numa direção diferente daquela que tinha quando eu olhei a pouco. Não consigo muito bem imaginar as mercadorias que viajam no Hamburg Sud, assim como acho difícil imaginar as pessoas que viajam no cruzeiro. O cruzeiro está a apontar para o oceano, os cacilheiros continuam a atravessar o rio e um outro navio de carga aparece lá de trás e avança na minha direção. Tento ler o nome que está no lado, AÇOREANA, será que vai para os Açores? A medida que escrevo me dou conta de que não sei nada dos trânsitos que percorrem o rio. Aparecem quatro lanchas que vão rápidas rio acima, com pessoas a sentir o vento na pele e o barulho do motor nos ouvidos. O cruzeiro dá sinal de que a viagem vai começar. Três toques graves. Tento imaginar as pessoas que estão lá dentro. Quem é que teve o desejo de passar uma semana dentro de um navio que mais parece um condomínio de luxo, andando de porto em porto? Fica feliz de ter um cheirinho da cidade, olhar desde fora, pisar por poucas horas, agarrar a essência em milhares de fotografias todas iguais. Talvez até seja necessário algum esforço para ficar feliz com isto. Ajuntar dinheiro ao longo de vários meses de trabalho. Estou a poupar dinheiro para ir num cruzeiro, preciso de uma semana de férias, vou descansar uma semana. Vou num cruzeiro e não quero pensar em nada, não pensar na rota, não pensar no destino. Uma semana com piloto automático, parando onde o navio para, avançando quando ele avança, tomando pequeno almoço na hora do pequeno almoço e jantando na hora do jantar. A experiência está tão bem explicada no guia turístico que quase nem é preciso experiencia-la. All inclusive, desde que eu não precise pensar, desde que eu não me queira demorar mais do que o tempo que me permitem demorar. Quantas pessoas cabem num navio destes? Cada uma com sua cabine que olha para o oceano, mas sem sentir o embalo das ondas. Cada vez fico espantada com o tamanho daquilo, está agora a passar por baixo da ponte. O outro navio de cruzeiro também já está de partida. Aparecem na minha cabeça expressões como revitalização turística, turistificação, gentrificação… até quando este pedacinho da margem sul vai ficar assim como está? Até quando os prédios caídos vão ser ruínas onde crescem flores e ervas e uma grande figueira e não hotéis com vista para Lisboa? Até quando o potencial de atração turística vai ficar inexplorado? Já apareceu um ou outro artigo nos jornais a falar dos grandes planos para a margem sul – que já não se chama margem sul mas tem outro nome qualquer, claro que em inglês. Por enquanto é possível estar aqui, sentada a beira rio e escrever. Não preciso pagar para observar os barcos, apanhar o sol do fim do dia, ouvir o rio que soa a mar, escrever, pensar. Não preciso tomar café, ou cerveja, ou vinho, para sentar numa das esplanadas com vista para Lisboa. Só preciso estar. O outro navio já está a passar por baixo da ponte, continua a viagem das pessoas que nele estão. Um avião se aproxima do aeroporto. Gente que parte, gente que chega, gente que se demora por aqui. Os pescadores a espera que um peixe morda o anzol.

valentina

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