Bloco do Minhocão

O Minhocão é um longo viaduto de alguns quilómetros que passa entre prédios, no centro de São Paulo. No domingo é fechado aos carros e aberto às pessoas. Fizemos uma caminhada-escrita por lá. Resolvi pegar no que escrevi e separar em blocos, comos os de Carnaval, alguns mais de matéria, outros mais de ar, uns mais vivos, outros mais mortos.

Bloco dos prédios: O que é esta massa de edifícios que se ligam pelo chão mas estão isolados entre si? Prédios vazios. Vidraças em vez de paredes. Vestígios de coisas no chão. Abandono. Um prédio vermelho, emagrecido. Prédios a olhar para prédios. Janelas olham para janelas. O que se pode dizer sobre prédios atrás de prédios, pessoas atrás de pessoas, passos atrás de passos? Varandas: rede para descansar; uma mesa redonda e alta, uma cadeira com design. Do outro lado, um churrasco no terraço a acontecer. Uma senhora presa na sua varanda redonda. Uma rede protege-a da liberdade. Uma rede de arames que tapa a vista, que fecha a varanda. Três edifícios a cair de podre. Cinzentos… Que história contam? Quais os materiais usados na construção? Ainda vivem pessoas? Ainda sentem esperança? O esquecimento é também interno? Que viagens têm? Que madrugadas? Um confronto entre prédios. Sermões de prédios em todo o sítio. Sermões e sermões de prédios.

Bloco das árvores: Aproximo-me das folhas. Uma planta trepadeira cobre a copa de uma árvore, parece um tecido esparso. As árvores devem sentir-se leves com tanta folha a sustentar, com tanto vento a passar pelas folhas. Estar acima da folhagem: a linha das árvores, a linha da copa das árvores, a emergência do ramo, a emergência da folha. Gostaria de saber o nome daquela árvore. Uma plantinha efémera cresce na parte externa do viaduto. A enorme seringueira-falsa aproxima-se. Vale a pena guardar tempo para ela. Guardar demora, olhar. Os seus ramos cheios que descem. As folhas que olham para fora e brotos que brotam. A sua copa que está acima do Minhocão. Há um vão no interior dela. Um ser que nos prende em vários volumes. Do outro lado, um prédio enorme, alto. Um contraponto. Aquilo parece um fruto no meio de uma árvore, um único fruto no meio de uma árvore. Um fruto verde mais claro do que a folhagem escura.

Bloco das paredes: Dois grafitis pintados em prédios que chamam, pedem olhar, admiradouros. Quanto tempo terão demorado a serem desenhados e pintados? “Esse mural é uma celebração à resistência diária da comunidade trans para construir uma sociedade onde toda e qualquer pessoa possa ser quem é.” Um jardim vertical que é uma máscara. (Ou uma cara). Numa enorme parede azul pode ser projectado um filme. “Lula Livre” A frente do prédio que tem o jardim monocórdico na lateral é feia. Pintura que se esmorece, pintura que se desenrosca da parede. Pintura que se esquece e é esquecida da parede. “Lula Livre” “#mulher Sem Temer Diretas Já!”

Bloco do olhar que atravessa: Um prédio com muitas janelas, uma bandeira de Inglaterra, um jovem passa de skate, outro jovem passa de skate. Um crescendo de prédios. Um cachorro veloz, uma bicicleta veloz, o perfil veloz dos prédios. O perfil lento dos prédios. Edifícios que parecem fachadas, lugares de vivos e mortos à beira da estrada, uma fotografia de família tirada ao meu lado. Gente em veículos que espera o sinal abrir e uma intensa parede verde de plantas, um jardim monocórdico. Uma luz acesa de uma divisão à minha esquerda, dentro. O entardecer, fora. Uma parede castanha escura. Um homem que olha para mim de uma janela. Seis canários passam. Não sei se são canários, distingo a sombra e o perfil enquanto voam, em duplas. E passa, de repente, um perfume. Não é uma pessoa, é um perfume. Um súbito pipocar de foguetes… Pipocas doces cheiram diferente de pipocas salgadas.

Bloco do Minhocão: Vejo pessoas a virem, nesta paisagem que não se esgota. Três motas de polícias passam, eles olham para mim, eu olho para trás. Alguém arrasta os pés enquanto corre. A velocidade dos patins em linha é incrível. Um morador de rua dorme. Um senhor volta a correr arrastando os pés. Um casal com mãos dadas. Mais gente, atente-se ao homem de tronco nu que corre. “Perigosa. Curva. Devagar”, escrito no chão. Dois caras olham para um prédio com uma feitura interessante. Lá em cima há um gato. Um copo sujo largado pelo chão. Bicicletas. A tinta desgastada do corrimão.

Bloco da rua: Uma feira termina, os ânimos do acontecimento, a vida nas ruas que acontece. Toldos azuis resguardam carros. Ao nível do chão, zebras, elefantes, girafas e leões – a savana africana pintada numa parede. O som sonâmbulo dos carros em baixo de mim. Vejo cães em jaulas, uma tristeza súbita.

Bloco evocativo: Um vão para a cidade. Tudo é promontório. Tudo vai sendo apresentado. Transportamo-nos sempre para a distância do ver, para a distância do exterior. Para o objecto, para o quadro, para a exposição. Uma galeria para a cidade. Olhem a galeria para a cidade. Olhem para esta obra intocável, intocada. Olhem para esta obra real, a envelhecer, a oxidar. As copas das árvores à distância da vossa mão, mas vocês não encontram altura, não percebem crescimento, não sentem exposição solar, fotossíntese. Só olham, não são regato, não são fluxo de nada, não compreendem o tempo. Um prédio atónito, bonito, sujo, envelhecido. Qualquer índio pode dizer: “Este pássaro é meu, posso fazer com ele o que quiser.” Mas eu não posso agarrar um prédio e fazer com ele o que quiser. Há histórias, pessoas. O Minhocão continua. É preciso corpo. Há uma insistência no Minhocão. Uma demora em si mesmo. Nesta arquitectura. A vida demorada no Minhocão. É uma viagem. Será que o Minhocão alguma vez termina?

Bloco utópico: Há uma planície em forma de estrada. A utopia na paisagem é correr de tronco nu. A utopia será a distância entre mim e aquele senhor à janela? A paisagem oferece-se nos seus códigos. Algo se desenha sobre a dobra do Minhocão: este lugar de estar suspenso, de ficar. Duas artérias da cidade caminham paralelas. Por baixo, carros, por cima, gente. Como seria uma cidade toda assim? Um passeio público a cinco metros de altura para todo o lado? O que é o chão? Esta horizontalidade e verticalidade a puxar-nos, este caminhar paralelo. Prédios alinham-se com o Minhocão. Corpo-Minhocão. Um vento surge. As ruas fazem correntes de ar. Que desenhos sucedem nos prédios? Que desenhos sucedem aos desenhos da rua? Sempre que se entreabre o horizonte, os olhos descansam um pouco. A cidade pensada por uma só mente? Impossível. E por várias mentes em etapas? Impossível também? O sonho parece o externo, o distante, o disjunto. Substância total.

Bloco do eu sozinho: É um pouco forçoso entrar. Muitas vezes, estamos longe de estar. Mais importante do que parar de escrever é parar de caminhar. Não estou completamente à vontade. Não estou completamente livre. Não estou completamente seguro. Sei que esta caminhada pode entrar em dança. Gosto deste lugar de haver um tempo limite da caminhada. Como termino de olhar? Como termino de caminhar? Qualquer coisa frio, qualquer coisa deserto, qualquer coisa viagem. Excerto de momentos. Tudo intensificado, tudo desnatural. Esta vontade da palavra que se segue de ser escrita, esta vontade de escrever a palavra que se segue. Este ímpeto de ir para a frente… A frustração. O fim.

nico

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