Lembranças de um Tango na estação

„Rápido, rápido, rápido.“ O comboio-serpente ou comboio-besta (isso é uma palavra que ouvi a Coline dizer numa conversa que tivemos há várias semanas) bufa, talvez para chamar a atenção, talvez para juntar as suas forças para a partida da sua viagem, rugando-se por entre o mosaico de predios-corpos que chamamos cidade. Levanto-me e passa-me um calafrio. Será porque o frio está a invadir-me de fora, ou será que é um frio que vêm mesmo de dentro de mim? Fico um momento cantando, de Cajuina e do destino. Destino, fim, fútil, objetivo, caminho. A minha consciência passa para o movimento dos meus pés no contacto com o chão-pedra da estação. Fazem um movimento rítmico de mudança de peso. É só isso. Simples. Mas olha o efeito que tem! Nas minhas mãos por exemplo…que movem-se de esquerda para direita, desenhando um movimento ondulado, que é também raio. É só mudar o peso, e muda tudo. Muda direção, muda contacto. E a respiração que acompanha, que indica a mudança de peso ‒ que é também deslocalização, que é também transformação no contato. É a troca do peso, a troca da composição corpo no contacto com o espaço, que anuncia uma possível mudança do sistema ‒ de direções, movimentos, vocabulário possíveis. Lembro-me das minhas poucas aulas de Tango Argentino, dos primeiros passos que dei nesse (re-) aprender a caminhar, nesse (re-)aprender a estar com o espaço e na presença da dança entre-corpos. É só caminhar ‒ caminhar para trás no caso da pessoa que está a seguir as sugestões de quem lidera. Pergunto-me quem ou o qué me lidera no meu caminhar dia-a-dia? Quais são as propostas e as respostas, as sugestões e as improvisações nas vozes de lider e seguidor dentro de mim?

“Beautiful Tango, take me by the hand…”, aparece essa música da Hindi Zahra na minha mente e lembro-me que o professor falou muito da importância de avançar sempre primeiro com o pé ‒ antes de concluir a deslocalização do caminhar com a mudança de peso. Essa lembrança do Tango leva-me a pensar na importância de ir sentindo sempre o contato entre pé e chão, ou pé e terra, em cada passo de dança-vida. Falo de tal atenção no movimento do pé que inicia cada passo do caminhar-dançar em Tango-vida, com a planta do pé apoiada talvez só por um lado, o outro lado escutando as ressonâncias do chão. Ou talvez avançando com o calcanhar e deixar a ponta no ar, até sentir o lugar de encontro com a terra onde o pé sente o convite para poisar. E então avança esse corpo em dança ‒ a partir do seu centro ‒, transfere-se  o peso para que as camadas possam juntar-se de novo, entretecer-se com as sensações e ventos apanhados e poisar até sentir um novo impuls-convite-sugerimento. A frase do Peter ficou-me na cabeça: “Na realidade, o homem é feito para andar atrás […] têm muito mais possibilidades de movimentar-se/dançar para trás.” Foi mais ou menos isso que ele diesse, num dos meus primeiros encontros com o cem. “Mas se os nossos olhos estão na frente do nosso corpo?”, foi o que um amigo me disse a propósito dessa frase que ressoava em mim. Por acaso preciso dos meus olhos para caminhar? Sentir com a ponta do meu pé, olhar com a ponta do meu pé, transferir o peso, poisar..é uma certa proximidade com a terra que me traz esse olhar através do meu pé. Uma outra qualidade de conversa com o lugar de poiso, o lugar do momento. Pôr as quatro patas no chão, ser também leona ou tigre. Recuar no que é também avançar. Talvez recuar para poder avançar em outro momento. Talvez recuar para que outro elemento, outra parte possa avançar. Recuar e avançar ao mesmo tempo. Ser onda que balança na superficie do mar, sendo um, sendo em contacto com o seu tudo até ao fundo do mar. Água, que pode ser gelo, pode ser nuvem, pode ser gota, pode ser mar, e é na sua essência, no seu eu, todo ao mesmo tempo. Vejo essas ondas de pessoas, que pouco antes foram gelo, ou rio ‒ talvez um rio congelado dentro dos comboios que chegam na estação como nuvens barulhentas de uma tempestade que precisam esvaziar-se na terra, sendo essa fértil ou não. Casas, pedras, ruas, vidro, escadas, carros, árvores, e pedaços verdes ‒ paisagem urbana, “Kulturlandschaft”. O que é que cresce nessa paisagem, nessa terra transformada em cada segundo, com vários ritmos de transformação ‒ o ritmo humano sobrepondo-se quase sempre aos demais ‒ quais são os frutos dessa terra-paisagem-urbana? As suas flores, as suas sementes…

Julia D.

(lembrei-me desse texto escrito umas semanas atrás o outro dia, quando passei pela estação do Rossio, por volta da meia-noite, e ouvi uma música de Tango que chamou os meus pés para subir as escadas, onde havia uma dezena de pessoas a dançar Tango na estação desolada)

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