O texto-têxtil

o texto-têxtil pode ser um bom meio pra pensar os (des)teceres na costura das linhas do corpo de cada um.

Cada um cuspindo a sua linha, como na baba antropofágica da Lígia C., e pode-se tecer um texto-lençol coletivo, como o Divisor da outra Lygia.

Pensando nas linhas que os corpos vão fazendo da praia até o topo da colina, passando pela mouraria e subindo pelo leito do rio asfaltado, lembrei de dois rastros diferentes:

A primeira é de João e maria, que iam marcando o caminho com pedaços de pão, o que foi pouco prevenido pois sempre há alguém com fome. O outro é o fio de ariadne, que teseu vai desenrolando pelo labirinto do minotauro. matar o minotauro é fácil, sair do labirinto é que é difícil. moral das histórias: melhor marcar o caminho com algo que ninguém possa comer.

se calhar posso tentar escrever entre as linhas, como um movimento que vai ai tecendo ao mesmo tempo que ele destece…

e tem ainda o (dês)tecido da PENELOPE?, que destece de noite o que teceu de dia, pra ganhar tempo enquanto o folgado não volta a ítaca.

se calhar entao as palavras entre as linhas podem resoar nas palavras entre outras linhas, subterrâneo, subterrâneo, subterrâneo, subterrâneo, subterrâneo…

“O mytho é o nada que é tudo”. Ressoa essa frase de um poema de Fernando Pessoa, que acompanham uma pintura sobre Ulysses na chegada da estação de Rossio para o metro dos Restauradores. O quadro está também acompanhado pelo ratata das escadas rolantes pelas quais escorre o rio subterrâneo de pessoas cuspidas pelos comboios na superficie. Só vejo as sombras das pessoas no muro na minha frente, onde se vão misturando com as palavras de Pessoa e parecem estar descendo do barco de Odysseus para correr ao metro que não os espera. “Pare. Escute. Olhe. Não arrisque a sua vida”, aconselha uma placa a quem que vão descendo. Ao lado bebe-se café, como se fosse no sol de uma praça ao lado do rio. E eu vou com o rio.

subterrâneo… onde que eu estou? onde que o mundo esta?

chovia, chuva fraca, claro estava que esse corpo hoje tecia o seu destecer no ir, num desenrolar infinito do caminhar no passar das paisagens sonoras no caminhar da cidade pelo corpo e o rolar das imagens pelos olhos, uma caminhada leve e ritmada que não cansa, poisar agora não fazia o menor sentido…seguiu…de uma rua para outra, costurando retornando entrando de lá meteu-se em ruas de santo antónio, por agora parecia saber por onde ia mas uma entrada misteriosa a esquerda falou mais alto,

já lá tinha estado atraída pelas chaminés de tijolos, ainda há algumas na cidade, avanço curiosa dou uma volta pelo pátio, apercebo-me de aquilo que sempre me encanta: a grande convivência do abandono, com a luxuriante vegetação, e com a ocupação ainda de alguns espaços por martelagem, máquinas, uma oficina? saio, a pensar tenho que voltar e dou com o cão a dormir à saída. penso deixaste-me entrar e sair? deixou nem se mexeu. já no piquenique falo do espaço e diz a júlia l. estive à entrada. e pronto ficou inscrito na nossa peregrinação e voltámos… em matilha. e aí vi com olhos de ver os restos da horta de um dia, a figueira, a nespereira, a parreira, o amor de hortelão, a urtiga e tantas ervas que aparecem no abandono do que foi a horta fértil. a olaria a ser despejada: tem que ser até às 16h diz o dono sem tempo para nos deixar espreitar. temos que entender. nem sequer aceita a nossa ajuda. mais uma voltinha e vamos saindo. e antevejo o cão que afinal são dois e o dono que lá vem. são mansinhos, nem nos ladram digo eu, são huskies diz ele. não ladram, uivam. o anão, não. às vezes ladra. como o pai. e vai dando ordens aos cães e comentando. formamos um semicírculo á frente dele. nem precisa do nosso incentivo vocal, vai falando com os cães e connosco. igual. uivar é saudade diz. a mãe gostava era do anão. já ela estava mal, separada dele, quase a morrer, com um tumor e ouviu-o ganir, e gania muito também. com pena dele. era o preferido. quando eram pequenos, eram cinco, quatro rapazes e uma menina. eu vi estava cá, conheço até os avós. ela não os deixava chegar perto e eles, apontava para nós, assim à frente dela, a ganirem, tinham fome, e ela nada, até que começaram a mamar nas pilinhas uns dos outros, a menina não tinha pilinha portanto não mamavam nela, mas então os outros… a menina também se atirava a pilinha dos outros à dela é que ninguém se atirava que ela não tinha. era uma chiadeira aqui que nem se imagina. só depois, repare bem, só depois é que a mãe os deixou chegar e nenhum a mordeu. tá a ver? eu vi estava cá. mas de quem ela gostava era do anão. sentia-me a deslizar rampa abaixo, com um vago adeus, até já, pois.. são lindos, e encontramo-nos todos á saída perto das muitas caixas de correio, calados, seguimos sem comentários para o largo do intendente. fotos da julia d.

 

se calhar, continuar tecer entre as linhas formula o desejo duma ausencia de longe que vai se fazer presente nos momentos de congruencia, ja la vai o corpo que aparece entre outros, se nossos corpos sao pouco visiveis, nao sao menos presentes, nao sao menos a falar nem viver.. cuando chegamos juntos na praia nos nossos caminhos diferentes e chamar por o outro “JULIAAAAAA!!!, Cicerooooo, Juliaaaa!!!” , cual é o mundo desse conjunto de tantas diferenças?

Saindo da mitologia, tentar aprender com os animais: as formigas marcam o caminho com feromônio, o que é invisível mas não imaterial. Pode ser apagado com um dedo.

como nossos caminhos são também pouco visíveis mas não imateriais (vamos deixando uma parte nossa por onde passamos, as pedras da rua augusta escorregam de tão polidas, gastas de tantos pés). o melhor talvez seja marcar o caminho com a experiência do corpo, mas também com a palavra, a canção, como os aborígenes. o texto é outra forma de cantar os caminhos, uma forma de guardar os rastros sem que ninguém coma nossas trilhas.

cuspidas as referências, qual o têxtil que o corpo coletivo vai escrevendo pela cidade? Na cidade andamos sempre sobre os rastros deixados pelos outros – a rua é uma concreção da repetição dos caminhos. podemos ler passivamente o texto que a cidade oferece ou podemos recortar as palavras para tentar montar o nosso próprio texto-caminho.

Um texto-caminho que se vai construindo através da demora andante que ressoa entre os corpos que vão sendo têxtil em (des)teceres. Andar, não para chegar, não para deslocalizar-se externamente, mas como elemento-consequência-essência de escuta.

De ‒ mo ‒ rar. Palavra que engoliu o verbo “morar”. Viver num espaço. Viver UM espaço. Fazer um espaço seu. Sem forza, persistindo.

Ou ainda se preciso for, de início, insistindo um pouco também. Não no sentido de repetir, mas de continuar, sem deixar de lado a delicadeza, aquela que se define como uma distância que não quebra o afeto, não impede o cuidado e a ternura. Uma  espécie de delicadeza, que procura perceber qual seria a ‘justa distância’, o justo espaço que constrói a teia, a trama.

O que será então apenas ficar aqui? Ainda que por força (de início), mas ficar aqui, insistir até que a palavra demorar  faça sentido?

Uma morada temporária. No caso, um espaço escolhido, semeado diariamente,  para que se habite por um tempo específico.

Na dicotomia entre partir e ficar

…hoje apareceu alguma dureza entre mim e o espaço que precisou de tempo para amaciar…

um ajuste…um re-acomodar dos corpos…

escutar o aparecer de suportes e as possibilidades de (criar) corpo ali…

demanda tempo…

suavizar o corpo no espaço destecer corpo no espaço

destecer do espaço nos corpos

suavizar o espaço entre os corpos

estar sem esperar estar com respeito

à beira do querer

morar sendo nômade e viajar na demora. a demora é uma casa imensa com portas e janelas e intersticios abertos que deixam passar por todas parte os correntes de ar, onde as coisas e pessoas nao sao com lugar ninhum enquanto elas ficam em algum lugar

A necessidade de estar presente ou vivo em algum lugar, de permanecer, de encontrar-se, fixar-se ao mesmo tempo em que sintoniza com o barulho  dos planos de fuga, os desejos do turbilhão de mobilidade e mudança.

Experimentos do ajuste do corpo à arquitetura, ligeiro desconforto. Experimentos de vidas que se cruzam, algumas que vão retornar, outras que passam a murmurar desamparo infinito.

Pergunto-me: como é que a rua aguenta tanto movimento, tanta velocidade de passar por ela em corpos barulhentos? De onde é que ela tira o ar para respirar? Quando é que ela descansa? As ruas, têm direito para descansar?

Para criar espaços em branco de porvir ainda por fazerem-se?

Uma espécie de brecha entre a noite  e o dia

um filtro para as novas formas do mundo.

Uma membrana entre o corpo e a noite que reconsiderasse a passagem inexorável do tempo

das coisas urgentes

A experiência cotidiana da escuta entre espaços

corpo-casa abrigada, ninho de órgãos ossos fluidos

e corpo-casa mundo que surge como morada instável aberta

atravessada por imagens de fora e pelos barulhos das coisas ao redor.

Onde está  a borda?

centro e periferia
raios de sirenes coloridas
e ruídos
corroem o contorno
revoadas

Coisas urgentes como a partida do comboio,

a distância entre os nossos dois

corpos naquela escada em que não descobrimos o nome,

subterrâneo, subterrâneo,.. o barulho da estaçao poucas vezes se para, e cuando se para, a humidez do seu som continuooo, talvez uma sorte de urgencia sim, uma sorte de urgencia de todos esses corpos que attravessam o espaço dalgums passos

e o desejo de escrever nas paredes

— que continua a passar pelo desejo das paredes de se terem escritas.

É um tempo

Uma impressão.

Embora o descansar do sacro implississe em empurrar o corpo a sentar-se, vai-se de pé. fora dentro fora dentro fora dentro —

A estação começa aonde? Na entrada, na partida?

sabe bem ao coração considerar pousar na trama

A Coline parece querer passar à catraca

se calhar já passou

Enquanto isso a Isadora

atravessou para a rua da mouraria, passou pela lavandaria, que estava fechada, e em frente pela rua da madalena sentido terreiro do paço passando pela renata que conversava com o homem das empanadas, mas mais uma vez não conseguindo não seguir caminhando, parando apenas uma vez porque a chuva agora caia cheia de vigor e com vontade de molhar. seguiu pelas beiradas da praça do comércio, passando pelos restaurantes onde reparo nas pessoas que sentam com suas bolsas e em todo o dilema de como melhor acomodar os pertences. fico ali um pouco mas sigo em baixo de chuva fina em direção ao rio, degustando a sensação inédita de ser o único ser humano naquele espaço tão amplo a fazer isso. vejo o artista das esculturas de areia a construir uma barricada que impeça o mar de avançar sobre seu lagarto-dinossauresco e hipopótamo. sento no muro molhado e alguns segundos depois o sol é descoberto pelas nuvens que já não chovem, acompanho com as costas a chegada de casais e pequenos grupos de pessoas até os muros estarem cobertos de debruçados e os semáforos de pedestre acenderem com muito mais frequência, a praça agora borbulha de gente, a barricada não é capaz de segurar o mar(rio) que a cobre e descobre derretendo-a e formando um lago com espuma alta e espessa ao redor das esculturas que vão desabando e sendo lambidas pelo vai e vem das ondas, avisto a coline apoiada num poste.

subi da avenida à praça da alegria, embalada pelos tambores da manifestação.
fui mais alto à ver se encontrava onde fazer xixi. dei com uma escada, a fiz subir a mim no eco do povo a desfilar lá embaixo. subi mais ainda até o príncipe real.
fiz olho de nota e virei o corpo à descida, deixando os pensamentos no momento anterior. desci a encontrar o nada e do nada e só encontrei o vento.
vento me soprou adiante quando parou de empurrar para cima.
embalei até embaixo, dei à praça da alegria, que em suas serpentinas traçou-me ao pé-tronco-árvore, que subi atravessante até dar aos vislumbres do medo de estar em cima.
realinhada ao baque do tambor de outrora, que se fez passar pela brecha quando a vislumbrei, sento e escrevo

Depois da praça do comércio, escorre à-borda escreve. O cheiro ganza do rio assombra à coluna um banco esquerdo.

Orientais a brincar de modelos para fotos, três meninas meditam intervalos a contaminar às fotos.

Espiam escritos , quase fuçam-me também, mas na quebra do banco o vendedor de lentes me poupa. A garota que contempla ao invés de derreter

levanta,

observada nota: as 10 sem um quarto

essa manhã ensolarada me racha. Pombas sincronizadas, imensos peixes

à poluição nadam patos, boiam gaivotas ziguezague. Mistura de chinês com alemão, uns molham a mão, os mais velhos não, até que 2 corajosos se banham no Tejo em cuecas após o cooper colorido tecnológico

depois disso não sobra nada além Júlia

à sombra não caibo e dou cabo!

o nada
o só

vento e o embalo do vácuo

o pouso quando vem de longas pernas de movimento se faz mais suspenso e por acaso

sabe-se la o que se estava à espera…
e quando deixou de esperar encontrou o vazio, conforto do nada.

só está e desdocumenta porque não quer atrasar o presente

a escrita sorge, orge agora
é qualquer tonta tonta é só gesto meu

no rio

Nem sabia da trava da pia )na cabeça( e do nó na tripa ] quadril [

escapulirão hoje também a régua do Rossio , a tartaruga da Pena…

e nas estradas do nome dança a estrada dos nomes

 

os demoradores

coline, cícero, gastão, luz, julia l., julia d., renata, isadora, laura

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s