épica rua augusta

balbucia a lady certa de que encontrou alguma coisa, mas se engana e entra sem saber por quê em mais uma loja da rua Augusta. por onde viajam as escritas? o quão antes ou o quão depois da real life se circula a atenção? Aqui atrás os produtos estão caros, diz a moça e a sacola soculejou pra mim folgosa. também as rodas da moça passaram assim a lembrar que hoje estou assim por fora, mas que posso bem estar por dentro, tomada pelas ondas.
a massa de calças é aveludada no tempo. passaram todos juntos a cardar o ar
passos em silêncio, ou passos na boca
passos para baixo, passos para frente
feuille, parce que c’est delicat
ainda rostos que pontiagudam o ar.
aqui ao lado pousou uma presença amorosa e me acomodo nesta companhia

agora com toda a moribunda bunda no degrau da loja, sinto uma aproximação não conversante que pode chegar bem perto sem sequer me tocar a presença
já a outra chega a lançar palavras ao ar ao redor de mim, mas como eu não as pesco, segue ela sua bruma de lamentos a embalar o andar. parece que poderia mesmo ver a cintilar ao redor deste corpo uma sorte de lantejoulas ruidosas palavras a pairar em aura
bribes
alguns de nós se confundiram,
pensaram ser manequins

escrita a soltar outros lugares, nem posso com a paisagem como camadas de tecidos corporais que se sobrepõem e se inscrevem umas nas outras. assim são as camadas de histórias que tecem as presenças. despontam por aqui e por ali, lambem outras presenças, repicam outras e vão assim se reproduzindo à medida que se destecem, consoante ao desejo do que bem se quer diferente

ainda paira a multidão. para onde irão?
como esteiras rolantes, o que vieram aqui fazer?
por que certos gestos chamam a atenção?
são gestos que dessincopados retiram-se do que está a acontecer e atinam na pessoa o estado de alerta. algo que precede o acidente
a transição, trasladação do corpo, entre a presença e a imagem
apesar de que esta palavra parece ser bem mais do que aqui se quer dizer.
me encanta a seriedade com que levamos o jogo.
nela brilha o ser, coberto de razão, portanto cheio de vontade de existir.
o ainda vento na contracorrente do épico de um filme entre a banalidade da vida arranha e ri do que é sendo, e o que é se emocionar com uma música.
(é um violoncelista, que toca com sua orquestra de bolso, alguma música das memórias de hollywood)
cria-se espaço e o espaço musical é feito de possíveis emocionais, espaço enquanto lugar cheio e vazio de uma qualquer aparência.
assim que para para, assim que abre-se deixa entrar outras regências
quando do silêncio desponta uma primeira fala ou um simples respiro, que se for seguido pela escuta, vai bem instaurar uma atmosfera arejante e amorosa.

me pousei atrás do violoncelista.
ao meio da rua, no dentro deslocado do acontecimento.

ao lado do olho, fico no reslaio dos transeuntes que passam mesmo ao lado, poucos sequer me veem.
encaixei-me na sombra do ser épico que hoje faz da rua augusta um passeio romântico. é tudo muito engraçado, um show espetacular das melodias que tocam coração mesmo sem querer

ele para de repente
como um shift aleatório de um computador, já logo está sob novo registro, deixando o público assim à meia, no desajeito do estar e duvidar da realidade daquilo.
neste momento tudo parece artificial, pois não se cria com o sopro da confiança.

há agora uma roda de seres tocados.
movidos, parados, lembram-se de alguma coisa? será que voltam à casa?
é pura beleza a música

 

julia lá

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