Um vale que espelha duas colinas

O vale de Alcântara é atravessado na zona de Campolide pelo emblemático Aqueduto das Águas Livres. A sua função original (transportar água para a cidade) perdeu-se há várias décadas e uma potencial função alternativa – ligação pedonal entre as duas colinas, que foi também desactivada – é apenas uma miragem… De facto, pode-se atravessar a pé o Aqueduto pagando um bilhete que dá acesso às varandas com vistas para sul ou para norte, a partir de Campolide (Museu da Água da EPAL), mas a porta de acesso a Monsanto está encerrada e protegida com arame farpado. O Aqueduto está assim reduzido à sua função de monumento e ex-libris da freguesia de Campolide. Mas o Aqueduto não é o único obstáculo à travessia entre as duas margens: há ainda a linha do comboio, a avenida Calouste Gulbenkian e o eixo Norte-Sul. O manto verde de Monsanto avista-se de vários pontos da colina de Campolide mas o desejo de o alcançar não se deixa realizar facilmente. Foi esse mesmo desejo que esteve na origem das caminhadas que o Francisco Pinheiro e eu próprio temos vindo a praticar desde Fevereiro. O objectivo inicial de encontrar as vias de acesso pedonal ao parque florestal foi progressivamente enriquecido com a vivência do caminho, que nos foi dando a ver o tecido urbano fragmentado das duas colinas que íamos atravessando. Foram-se revelando também as dimensões social, cultural e natural, com as suas componentes humanas e não humanas. Do lado nascente do vale (colina de Campolide) sente-se um ambiente de classe média, em particular no antigo bairro social da Calçada dos Mestres, agora na sua actual versão retocada, com as sucessivas obras de renovação das antigas casas de tipologia uniforme e que já ostentam as marcas da criatividade de moradores, arquitectos e empreiteiros. Mesmo assim, são ainda visíveis as zonas de habitação bem mais modesta, com os seus pátios e vilas, nomeadamente na zona da Cascalheira ou na Quinta do Tarujo. Do lado poente do vale (colina da Serafina) as habitações mais marcantes são as do Bairro da Liberdade, cuja génese de auto-construção e reputação duvidosa ligada ao tráfico de droga, criaram uma imagem de marginalidade e pobreza que perdura ainda hoje. Não admira que muitas pessoas da colina de Campolide não conheçam, nem queiram conhecer, as suas vizinhas do outro lado do vale. A resistência à travessia entre a colina de Campolide e da Serafina não se limita às clivagens sociais ou às múltiplas vias que obstruem o vale e materializa-se, por exemplo, na passagem pedonal inferior da avenida Calouste Gulbenkian – o desconforto instala-se nos corpos que a atravessam por via da sua fraca iluminação, os grafitti que cobrem as pareces e os cheiros pungentes de urina ou creolina, conforme o dia da semana, uma vez que a passagem é lavada semanalmente à mangueirada por funcionários da CML que também aplicam aquele desinfectante. Apesar da aparente impossibilidade de ligação entre as colinas, nas sucessivas travessias que fomos fazendo, comecei a vislumbrar curiosas ressonâncias que pareciam espelhar as realidades das duas encostas do vale. Por um lado, os dois bairros sociais, com traçados regulares, construídos durante o Estado Novo: primeiro o da Serafina, com as suas casas de piso único, mais simples e mais modestas, e depois o da Calçada dos Mestres (do lado de Campolide) com as suas casas de dois pisos, que eram atribuídas aos técnicos superiores das empresas públicas. Nos dois bairros são visíveis sinais da mais recente renovação arquitectónica das casas, que foram dando origem às marcas mais ou menos ostensivas da individualidade dos seus proprietários. Nas duas encostas encontram-se também os vestígios dos bairros de construções modestas da população mais empobrecida, de traçado mais ‘orgânico’, e cujas ‘ruas particulares’ ostentam ainda a marca da precariedade da vida dos que ali ainda moram: bairro da Cascalheira e Quinta do Tarujo (Campolide) e bairro da Liberdade e Vila Ferro (Serafina). Junto a estes bairros encontram-se nas duas encostas algumas hortas espontâneas cuidadas pelos seus moradores. No entanto, em ambos os casos, a CML já tratou de instalar hortas camarárias de uso condicionado, com o seu aspecto mais compostinho. Nas duas encostas existem troços de escadarias, de ambos os lados do Aqueduto, que parecem ensaiar uma ligação entre os dois lados do vale, mas que ficam só por um desejo não cumprido que se manifesta também na fragmentação e no desalinhamento dos respectivos traçados. Em ambas as encostas encontramos prédios de construção mais recente destinados ao realojamento de pessoas dos bairros precários que foram entretanto demolidos – o bairro da Bela Flor (Campolide) e os prédios de realojamento dos habitantes da Vila Ferro e do Bairro da Liberdade (que foi parcialmente demolido nos anos 1990 aquando da construção do eixo N-S) na encosta da Serafina (junto à Igreja Paroquial de S. Vicente de Paulo). Nas nossas travessias fomos fazendo pausas nos estabelecimentos locais e encontrámos mais um espelho curioso entre as duas encostas. Na Vila Maria, do lado de Campolide, temos conversado com o proprietário do Café Magalhães, o sr. Joaquim, que é originalmente de Lamego, e que atende também os clientes da mercearia contígua. Na colina da Serafina temos petiscado na Pastelaria Zeles, que é de facto uma das tascas mais concorridas do Bairro da Liberdade e que é gerida por um outro sr. Joaquim, este natural de Aguiar da Beira. A tasca foi-nos recomendada pelo sr. João, cliente habitual e personagem famosa do Bairro da Liberdade, entre outras coisas, pela sua pulsão de pintar fachadas e muros. Mas essa história fica para outro escrito…

Álvaro

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