uma cartinha

20 de agosto de 2018

cem – centro em movimento
Rua dos Fanqueiros, n.150
Lisboa

Querido cem,

Daqui do Rio, nestas “férias” cheias de novidades, o retornar tem se apercebido como ir. Lembro da Sofia a convidar o estudo do retorno do movimento e me apareceu que quando adentramos o atravessar entre cidades-corpo, retornar não existe. Só existe ir. Como se o retorno não fosse do universo do eu, mas sempre do universo do outro. Vim de Lisboa para o Rio. Não voltei. E encontrar revendo — as ruas, as pessoas já antes vistas, o preço das passagens de ônibus — inaugura a diferença e desvenda uma espécie de perigo no reconhecimento. Nasci em 1988 sob o signo da balança e o aprendizado da membrana eu-outro perdura(rá). Neste céu aventuroso de 2018 que o Bernardo tem ajudado a ver desafio-me a investir na desconfiança do que é se reconhecer noutro corpo. “Difícil é ver o outro no outro”… 

Acompanhar reencontros como encontros desfaz-faz o aprendizado do nascimento, continuamente. A desconfiança de quem nos olha querendo ver o que já não está, e a petulância dos nossos olhos deslizando no mistério do “e agora”?; aprender com o impulso de responder as expectativas deve também ser um cargo (espiritual até). Os espaços de troca e investigação nos quais pousei aqui intensificam a prática da colocação, da escuta, das doses; mesmo porque o corpo se sente um bocado desprotegido. Descubro a fatalidade que pode ter o erro — aí, errar pode ser doloroso, mas vive-se. A impressão que se faz é de que o Rio está forte. Seguro da sua luta e claramente em guerra. A guerra diária: as trincheiras da manhã no ônibus que custa R$ 3,95, as histórias de quem mata quem morre quem leva arranhão de fuzil enquanto faz a curva pra entrar na creche, a iminência das eleições que aterrorizam pelo tom nefasto que tem a disputa eleitoral. Num lugar(-tempo) em que tudo parece fazer muito pouco sentido, a concretude do sonho exige muita garra. Exige muito pelo direito mais minúsculo de existir. A Lidia dançou ontem e há muita prática de guerrilha no corpo dela a mover-se, enquanto dança e enquanto — depois — conversava com a gente. A guerrilha do provocar levantes, e do clarear e deslocar os modos pelos quais o poder se organiza. Descubro que a frente de batalha é lugar, que a defesa é lugar, que a frente de cuidados é lugar, que a diplomacia é lugar. E o muito trabalho a ser feito pelos que querem fazer diferente. Aparece amor como pergunta. O acarinhar como distância. As cidades, as pessoas-cidades contando as suas vontades, urgências, necessidades. A velocidade a dizer que cuidar aqui não é a mesma coisa que cuidar em Lisboa. 

O entre cidades a pôr-se tão real, tão material. O Rio de Janeiro já estava na Lisboa, e agora há Lisboa no Rio de Janeiro. Não é sobre simbolismos isto, é sobre o corpo. Tenho me espantado um pouco com a força do ir-ficar quando aparece na formação do entre corpos; a escolha da passagem de ida e volta pode desfazer-se pelas escolhas do Tempo, pelos desejos de formação dos mundos.  

Escrevo para dizer obviedades, mas o mar, enquanto superfície desmesurada, desloca-se.

Cheirinho,

Laura.

    

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s