desfrutaria-estarcom pessoas e lugares na penha de frança

passeia todas as manhãs com a bébé diana, filha da sani e do gané (será assim que se diz?) que habitam a frutaria. diz que amanhã tem mais tempo.”é que a bébé não pode ficar ali dentro o dia todo…” não há quem entre na frutaria que não brinque com a diana…

quero pendurar a mochila no sinal, ainda não descobri outro lugar que convidasse. Valentina sobe à cadeirinha dona lurdes estica-se muito, mas é a renata que na sua compridez põe a alça no parafuso. fica muito alta a mochila…

caminho de mãos a abanar como o macaco do rabo cortado e vejo lá ao fundo um buraco na parede com uma escavaçãozita começada e não continuada. parece uma casa, com estante e tudo. A emoldurar o buraco umas ripas de madeira com pregos longos todos tortos…dá para pendurar o que quiser ser pendurado. Faz muito calor e o sol está a assar os pensamentos. Deixo ir chegando este cantinho com as suas surpresas…peço à sani um chapéu de chuva velho todo desvaretado que encontrei ao fundo da loja entre as couves. “leva leva”. encaixo a garrafa de água fresca na grade que tranca uma loja fechada junto ao canto-buraco-casa e tomo um chuveiro de chuva pouca. a água escorre pelas costas num fio.

 

daqui vejo as moscas na outra porta.

passa uma senhora com um andarilho, logo atrás um senhor coxeando, logo um outro andando com dificuldade. maré.

 

o café da catarina é da catarina que é mãe da ana. o pai também trabalha no café. abrem sorrisos de aldeia. alegres.

 

frente à frutaria atravessa a dona cecília que “tem muita dificuldade em comunicar”. tem um colar de pedras plásticas brilhantes e uma pulseira com 3 voltas a condizer. O vestido de flores traz o cinto debaixo das mamas.

apanha uma moeda de um cêntimo aninhada entre as pedras do passeio. “esta é a moeda mais pequenina que existe” diz ela “não me traz sorte nenhuma…” e pausa junto aos corpos deitados a escrever com a moedinha na ponta do dedo. espera que alguma de nós a recolha.

a moeda volta ao ninho no passeio e a cecília desaparece.

uma carrinha alta estaciona frente à frutaria, dá-nos sombra passageira. ele não pode ficar ali muito tempo porque é proibido, mas enquanto descarrega as verduras a sombra ajuda-nos a estar em paz. “é o meu amor” diz a senhora de cabelo branco que passeia a diana cada manhã.

em passando do meio dia já as senhoras da frutaria da frente ao lado do instituto de beleza começam a aconchegar as frutas, pela uma já são elas que cobrem os frescos e o fresco migra para o lado de cá onde escrevo, junto ao tal buraco-canto-casa.

“estão na praia” diz o homem.

agora está tudo inclinado. banco inclinado, chapéu inclinado, rabo inclinado, saco inclinado caixote inclinado.

a rua escorre. a bébé diana come uma banana. a bochecha, a mão, o pé, comem a banana. uma velhota poisa o saco com batatas no balcão ao lado da diana.

“vocês estão a dançar ou a escrever? primeiro escrevem e depois dançam?” pergunta a sani. gosta da cadeirinha, vai arranjar uma para a filha.

poisa aquele silêncio terno. estão 30 graus na farmácia da frente.

aparece uma mulher a ver do outro lado, de pernas afastadas, mãos atrás das costas…veio ver o quê? põe-se à espera que aconteça alguma coisa. o encontro é sempre a meio caminho…não tem fora. o acontecer não aparece por encomenda.

“pode ser que façam qualquer coisa” parece pensar…curioso como o fazer está mesmo alinhado com o ser e o estar…

 

lá dentro da frutaria a diana bébé experimenta andar pelo balcão nas pontinhas dos pés apoiada pela mãe sani.

 

passam cães. olha a dona cecília. lembra-se de ter apanhado a moeda mas hoje tem que ir ao café da catarina, está à espera de um telefonema. sorri e fala para dentro da blusa. “tenha um dia feliz!” digo eu. ela para, olha para mim com a cabeça inclinada e diz ”obrigada”. parece espantada.

 

agora é o senhor manel que é músico da televisão mas não parece (diz ele). Toca acordeão, harmónica e pandeireta. é uma das pessoas que mora aqui ao lado e entra e sai de casa várias vezes durante a manhã. dantes era chefe de cozinha mas agora dá concertos. Hoje tem 3. tem que subir para acabar a jardineira e já desce. “já ontem vos vi aqui a fazer praia, já tenho o refugado feito já venho à praia da penha de frança” dá uma risada que estremece.

de vez em quando vai alguém ao chuveiro da casa-canto-buraco deixar escorrer fios de água. a garrafa vai-se ajustando mais acima ou mais abaixo pelo gradeamento. sempre inclinada.

vou comprar uma alface e saio sacudindo a água por quem passa…só quem tem esse desejo de água saboreia a chuvinha da alface.

 

a maravilhosa que passeia a diana cada manhã tem 78 anos. diz que pode ser avó de outra neta se a mulher de lenços coloridos quiser. É 24 anos mais velha que o amor da sua vida, o homem da carrinha com sombra portátil.

 

duas mulheres estão de pé há mais de uma hora a degladiar lamentações. “ai coitadinha dela que…” “e o desgraçado…”. passo a cantar e uma delas ri-se. ”podíamos não falar só de desgraças”, “pois é”. gargalha e ainda a meio da gargalhada já “não há direito viver-se tão mal, ainda ontem….”continuam mais um bocado e quando se despedem uma delas diz que não pode com as pernas…desconfio que as pernas é que não podem com ela.

hoje há menos moscas, mas também há menos fruta podre estendida à porta.

 

o letreiro diz que entrega ao “domícilo”. fico a pensar que “domicílio” deve ser mais para uma casa-pelagem enquanto que “domicilo” será mais para casa compartimento.

a frutaria fica em frente à frutaria. entre um lado e o outro da rua balançam as pessoas e balança a sombra-sol.

 

aqui na loja da sani ninguém entra que não se demore. é um centro de com-vívio.

agora saem dali os cães soltos. o dono vem rindo em chinelos “ó charlie, ó charlie”. mas o charlie está velho e surdo e vai regando o chão de mijo.

 

uma mulher esbranquiçada e baça desliza pela rua de olhos baixos, apanha uma laranja que rolou da carrinha da sombra itinerante que o amor da vida da outra conduz e desaparece.

 

revoadas de teenagers ”quando uma rapariga e um rapaz estão juntos…”. não ouvi o resto da conversa…mmmm. fico sem saber o que acontece…

 

hoje a maloca está de cortina presa ao caixote do lixo da frente…para refrescar.

o dionísio é de áfrica. pode demorar-se um pouco porque está desempregado, ainda ontem aqui esteve em conversa com a patrícia. diz que o estado é que devia tomar conta de nós, “não é isso a economia? tomar conta da casa?” diz que há muito tempo que os políticos não gerem a casa. que seguem ordens de quem tem muito dinheiro, famílias ricas e muito ricas.

 

a ana do café da catarina diz que gosta de nos ver por aqui. e lá vem a catarina mãe da ana a passar frente à frutaria com um novo vestido de flores e uma outra flor enorme ao peito. atravessa a passadeira de queixo erguido sem olhar os carros. diz que eles é que têm que parar para nós passarmos.

então a cidade é só para venda? então e quem aqui vive?

 

Agora é o manel músico que era cozinheiro. tem duas vezes o cartão com um alfinete pregado no peito. não cheguei a ler o que lá dizia. talvez “manel músico que era cozinheiro”.

 

vem apoiado na canadiana e diz que tem mesmo que ir comer mas que já desce para tocar connosco, que ontem o concerto em alfama correu bem mas claro está é tudo como eles querem.

 

passa outra vez um desfile de pessoas coxas. não têm outra afinidade senão coxear, irem todas para norte e andarem devagar.

 

o calor fez-se mais fresco hoje. mas não fico ao sol quieta. o bernardo vem partilhar o chapéu de chuva-sol que a sani deixou trazer do fundo da loja.

 

uma senhora toda vestida de amarelo canário com o cabelo amarelo canário e um saco de cada lado encandeia-me. quase não vejo 3 turistas a palrar…aqui quase não há turistas…ou talvez seja a vivência da lisboa lá de baixo onde se tropeça em máquinas fotográficas e gente a andar de bicicleta com um plástico na cabeça e ajuntamentos que param no meio da estrada para comentar uma esquina pitoresca, ou um cenário de esquina pitoresca…aqui ainda cheira a aldeia. “bom dia, está tudo bem consigo?”

Simples sem nome dar bom dia

Dar bom dia a quem passa. O dispositivo de dizer um olá acena um estamos aí-aqui. Escolho evitar tergiversações sobre quem cumprimentar ou não e proponho-me a considerar todos os que passam com um olhar sem demasiados delineamentos.

Sentado no banquinho na esquina à frente da frutaria, noto algumas caras de espanto como se o meu bom dia cortasse por entre os pensamentos da caminhada de segunda-feira de manhã.

Gosto de um trabalho em que seja possível exercitar a ternura de cumprimentar, de dizer existente como for e abrir o fluxo de perceber onde o outro está, de onde vêm as suas vibrações.

A Vale e a Su exercitam pegar a sombra de um poste em meio ao sol escaldante, que surpreende a nossa ideia do que deveria ser setembro.

Pra variar, vêm-me umas danças de poses bichas que são uma paisagem à toa como toda paisagem é

Assim

Algo dessas coisas que se fazem porque sim, respiramos

Passa um sr. que havia recusado recuado do bom dia e dessa vez brinca comigo, pergunta se estou sentado por estar cansado e até sugere trazer-me uma mesa para escrever.

A Rê é a medida municipal do poste.

Novo dispositivo: sou a medida do movimento dos carros que passam. Estendo o braço e transporto o braço pelo vento do carro.

Ser poste

 

Gosto de sentir a coluna paralela às paredes da rua. Mas às vezes quero deitar no chão e ser paralelo ao pó

ou ser fantasma que veio de uma praia qualquer que se transformou em asfalto.

Entretanto o que apetece mesmo é sentir a barriga diante de um poste. Quase o toco. E sou quase o namorado do poste quando noto que a boca palpitou com a proximidade-distância. Que possamos demorar.

 

Dança-inseto

 

Antenas, cascas, radiação solar, zumbidos, papelzinho amarelo que a Valentina me deu. Arrancando o papel do cartaz da parede com a Sofia quero um dia colar um texto enorme e rasgá-lo como quem lê – o que restaria de cada vez que colasse de novo e arrancasse mais uma vez como quem gosta de estourar plástico bolha –

Chapéu de chuva – modo tão tenro de ter sombra ao sol – e macia a cabeça se aninha no teto de nylon –

Ditado:

Um rapaz de telefone conta histórias inofensivas. Patrícia coça a orelha e um senhor atravessa a passadeira.

Andreia aperta as coxas e a Valentina descasca a parede.

Um cão presta-se ás festas. Bernardo escuta a sombrinha e o moço sai com um saco de bananas na mão.

Sofia á sombra da Ducato inclina-se sobre uma paisagem. Passa um momento de silêncio. Valentina tira-nos uma fotografia e o Bernardo poetiza um papel. O garfo laranja de Cristina é igual ás cenouras que ela come.

O homem de t-shirt branca e calças pretas senta-se ao lado da Sofia de calças brancas e t-shirt preta.

O homem de preto curva-se com a mão nos rins.

Dedos de rua, passam os pés do meu lado. É verão, ainda se anda de chinelo.

Estamos de cores verdes.

A senhora tem todo o gosto em nos conhecer. Um almoço em tarro de vidro. Não sobre agarrar-se numa palavra concreta, não é concreto, abrir a mão. Saem palavras trazidas por pessoas que passam.

Uma bola escondida num buraco da calçada. Sentidos de andadas. Parece feriado. As obras na casa abandonada, seria bonito ter uma casa grande.

O homem que compra fruta. O gesto que se faz presente. Vejo forças. Quando os corpos estão relaxados o gesto flui. Espirais até às extremidades. Penso que deixei a roupa a lavar, e agora o ciclo já deve ter terminado. Encontros. Movimento circular. A implicação na situação depende do fluir do movimento. Talvez haja um fluir entre frutarias. O bebé vem cá para fora. As pessoas que gostam de falar sabem juntar-se com outras pessoas que gostam de falar. E as pessoas que gostam de escrever? Talvez se encontrem só na escrita. Como o movimento se gera nos corpos? Inquietação. Dois feijões verdes entram na loja de ferramentas. Passam dois pés a arrastar à minha frente.

 

Saber das coisas. Uma idade. Casa de Frutas. Mais um pouco. A bebé brinca com a senhora de cabelo branco ao balcão. Distanciar-me mais ou menos de cada corpo para uma pertinência de existir. Lá dentro há uma cena muito terna que só vejo pelo quadrado da porta. Um homem lá em cima vê-nos da janela. Essa coisa de cada um estar a fazer o que está a fazer. É sempre isso. Sempre que olho lá para dentro alguém outro está a pegar no bebé. Vejo-nos como minhocas com pernas. Movimentos de ir e vir atravessando a coluna.

Agora é a vez da outra senhora pôr os paninhos na fruta. Basta só estar um bocado na rua para perceber as flutuações das pessoas. Há bocado um encontro de homens.

Respiro.

Um homem entra na mota. Tem uns grandes olhos azuis. Talvez seja um anjo. Uma estrada de tempo que se desembrulha. Apurando afinidades. Escrita verde sobre calças verdes. Eu penso: quando vi a senhora hoje de manhã fazer festas ao cão ela fê-lo de forma tónica, como que massajando o cão. A mim isso nunca me ocorreria.

Casa de Frutas. O regresso dos que nunca foram. Com este sol não consigo pensar, os pensamentos esvanecem-se antes de tomar forma em palavras. Tento ficar com a cabeça na sombra do sinal do estacionamento. Um cão se aproxima, um olho azul, outro castanho. Também já tive um cão assim. O dono diz que é para ele poder ver o céu e a terra. Faz-me lembrar os retratos de Modigliani, um olho fechado a olhar para dentro, outro aberto a olhar para fora. Uma escrita que tenta acompanhar as luzes e a sombra da Penha de França, que tenta acompanhar o relevo das pedras. O papel amacia a pedra, qual é o meu papel agora? Desfrutar, estar entre a luz e a sombra. Observar uma superficie que se enruga e cria outras possibilidades. Ou que se dobra – origami. Escrever na pedra. A pedra conserva muita frescura, embora o sol já esteja muito quente. Já ou ainda, que isto do tempo e do calor e do clima anda tudo desregulado. A pedra vai penetrando no corpo. E o corpo penetra na pedra. Há uma afinidade qualquer entre o corpo e a pedra. O corpo procura a solidez da pedra.  A pedra procura a humidade do corpo. A pedra talvez não sinta nenhuma falta do corpo que ela é. Corpo-pedra. Fico a pensar em escultura. Na escultura que está na pedra e que se pode revelar. O peso do corpo na pedra marca o papel. ESCRITA. PEDRA. PAPEL. O chão de uma dança possível. Parece que estamos na praia. As mãos do Bernardo passeiam no ar, como tecendo teias de aranha. Dança da luz-sombra. Cartografias de presenças concretas. Vendem frutas, compram legumes, passeiam com o cão, dançam uma dança pouco provável, interferem no passeio de cada dia. A Corpos ao sol que derretem devagar.senhora Catarina lá do café diz que somos um espectáculo. Somos aquilo que não queremos ser. Se levantarmos bilhas de gás todos os dias não precisamos ir ao ginásio. CARTOGRAFAR PERPLEXIDADES. Caminhos que se deparam com presenças inusitadas. Corpos ao sol que derretem devagar. Faz de conta que estamos na casa dela. Casa como qualquer lugar onde o corpo possa recolher. Onde o corpo possa escutar-se a si próprio, escutando o mundo também. Escutando os carros que passam, escutando este sol na pele. A pedra impressa no papel. No outro lado do passeio já está na hora de almoçar. O senhor é musico e artista de televisão, embora diz que não parece. Vai para casa preparar o almoço e já volta. Vai fazer uma jardineira para o almoço. Estas pedras não são um jardim. Está muito calor, mas não falamos das mudanças climáticas, não falamos do tempo, não falamos da poluição que não tem solução. Não falamos do plástico que está em todo o lado, é só levantares os olhos e vais ver plástico. Sacos de plástico, caixas de plástico. Ele toca harmônica, acordeão e pandeireta. Mas agora não, agora almoça. Óculos de plástico, sapatos de plástico, um capacete de plástico. A carne aos quadrados fica muito cozida e ela não gosta nada da carne assim. Não gosto de carne, não gosto de plástico. Nesta hora o almoço é o assunto mais importante. Ela também não pode ficar, vai almoçar. Mas eu queria falar do plástico que está em todo o lado, na roupa que vestimos, na comida que comemos. Está no nosso discurso. Nas nossas relações, VIDAS PLASTIFICADAS. Nós encontramos amanhã?

sofia margarida bernardo suzana valentina

 

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